Todas as manhãs, a algazarra de meia dúzia de cães alcançando a porta da casa em que morava, após ter se mudado com a família de Goiânia para Colinas do Tocantins, sinalizava a Joelma da Silva Santos, então com 15 anos, que uma das melhores amigas da mãe na nova cidade aportava para a conversa de comadres. 

A passagem antecedia o "bate perna" de dona Maria do Marco Polo pela cidade. Mas houve o dia que a visita seria para a filha e não para a costureira Maria Inácio da Silva Santos, já falecida. A mulher fazia um gesto que a hoje servidora municipal, com 43 anos, não tira da memória. 

Era a época em que os jovens da cidade, a 270 km de Palmas, capital do Tocantins, ainda estudavam datilografia, ensino de digitação em máquinas de escrever, nos centros ligados à ação social de igrejas. “Ela chegou com uma máquina e não era de teclas redondas [que era considerado de modelo mais antigo], mas com teclas quadradas. Era uma máquina nova e eu fiquei muito feliz porque podia praticar em casa", relembra Joelma. 

Maria do Marco Polo era o nome pelo qual a família de Joelma conhecia Maria Lidia Martino, décadas antes da Polícia Civil do Tocantins chegar ao nome de Leonor Carrato, a mulher que viveu clandestinamente na cidade por cerca de 4 décadas. 

Leonor completou 100 anos de idade em abril deste ano, quando foi resgatada pela família da qual se separou em 1967, para fugir da ditadura. Permaneceu meio século sem dar notícia e só teve a verdadeira identidade conhecida após uma tentativa de roubo na casa dela, no dia 26 de março de 2020. 

Quando sentiu confiança nos investigadores, entregou seu nome de batismo para os agentes da Polícia Civil Maria Bethânia Valadão e José Luiz Júnior. Com a revelação, os policiais fizeram a conexão com parentes que moram em Minas Gerais e São Paulo, desencadeando a logística que resgatou Nô, como é conhecida desde a infância, para Andradas (MG), onde chegou no dia 27 de abril.

"Um dos motivos para ir todo santo dia na rua era atrás de comida para tratar desses cachorros. Ela cuidava demais deles. E eram muitos. Eles seguiam ela para cima e para baixo. Então passava lá em casa todos os dias a caminho da rua", lembra a servidora. 

 

Apesar do mimo para a prática da digitação e da amizade com a mãe, Joelma jamais foi à casa da vizinha. Sua família ainda tem a posse do imóvel de número 1.714, próximo ao Estádio Municipal, na mesma Rua 7 onde fica a 1.974, onde habitava Maria Lidia, lugar em que a funcionária pública não pisou os pés. 

"Nunca fui. Nunca tive coragem. Eu morria de medo da casa e de Marco Polo, porque diziam, na época, que era um centro de macumba (magia negra)", revela Joelma. Outro motivo é que entrar na casa de Maria Lidia era raridade. “Eles não gostavam de receber ninguém.” 

Eles, na fala de Joelma, englobam Marco Polo - empresário que mantinha uma indústria de pré-moldados de concreto-, Maria Lidia, “um livro ambulante”, segundo Joelma e, por um período indeterminado, outro personagem pouco conhecido. Um homem que Joelma identifica por Frederico. 

“Era o mais idoso do trio. Um homem alto, bem branco, que cumprimentava a gente em italiano: ‘buongiorno la mattina’, lembra. “No interior, o povo conversa demais e as conversas mesmo a gente não dando muita atenção, mas ouvia os vizinhos falando, era que ela, Marco Polo e o seu Frederico estavam fugindo de alguma coisa. ”

Ela acredita que os três se auto protegiam com a pouca receptividade na vida doméstica, na qual não se percebia vida conjugal. “Ela não era esposa do Marco Polo nem do Frederico. Não tinha vida marital com nenhum deles. Hoje eu acho que talvez viver juntos fosse uma proteção entre eles. Mas eu tinha medo.”

O temor pessoal passaria anos mais tarde, após ter se casado aos 21 anos, mudado de bairro e de ter vivido em Portugal, em duas oportunidades. Só retornou em definitivo para Colinas no ano de 2015. A máquina do tempo da datilografia daquele tempo há muito havia sido devolvida para Maria Lidia e estava entre os objetos da casa roubados por malfeitores. Por uma amiga, soube que Maria Lidia ainda morava no mesmo local, mas raramente saía de casa. 

Quanto a Marco Polo, só o reencontrou enquanto ele se recuperava de um acidente com uma moto que o conduzia em 2018. Ela visitou o antigo vizinho no hospital, em Araguaína, 100 km ao norte de Colinas, durante uma viagem a trabalho. Um ano depois, Marco Polo faleceria. E sua morte agravaria ainda mais a situação de Maria Lidia.

Kardecista e ex-prefeito lembram restrições para entrar na casa de Nô

O cenário precário em que Nô estava mergulhada no últimos anos em Colinas era conhecido do empresário de transporte de passageiros e vice-prefeito de Colinas (2017-2020), Aurelino Pires (Podemos). Kardecista, ele conviveu com Maria Lídia e Marco Polo em razão da crença religiosa, mas embora ele e Marco Polo frequentassem o mesmo centro espírita, entrar na residência dos amigos exigia um rito. 

“A gente chegava na casa e tinha de bater palmas e se identificar. Então batia palmas e chamava. Tinha até impressão que ela não tava lá. Aí chamava de novo. Aí ela respondia. Ela abria só um cantinho da porta e me recebia.” Pires associa a cisma a um possível trauma na luta contra a ditadura. Uma situação que se agravou após a morte de Marco Polo, em janeiro de 2019. 

Se por um lado a morte do companheiro reforçou o trauma, por outro lado serviu para mostrar que Pires havia conquistado a confiança da ex-guerrilheira. Quando ela passou a ser vítima de ataques de malfeitores, temendo ter a documentação pessoal roubada, confiou a Pires todos os documentos pessoais e escrituras de imóveis que ela e Marco Polo possuíam. 

Pires também fazia parte do grupo que tentou ajudar a senhora por um tempo. “Nós chegamos a propor para ela: vamos vender um lote e construir uma quitinete, alguma coisa assim, bem arrumadinha, pra senhora morar. Mas ela não quis. Não aceitou nem tirar as goteiras da casa dela.” E mais: "Ainda conseguimos trocar as fechaduras da casa que os malas arrancavam."

Até a limpeza que removeu seis caminhões de lixo do imóvel onde morava precisou de muita negociação que envolveu órgãos da Prefeitura Municipal, como lembra o ex-prefeito da cidade por duas ocasiões, pelo PT, o bancário José Santana Neto, que era o gestor quando houve o primeiro expurgo na casa.

“Aquele negócio do lixo foi no nosso mandato, deu muito trabalho para tirar aquele lixo de lá. Uma ação que envolveu também agentes comunitários de saúde, fiscais e a vigilância sanitária. Eles não gostavam que os agentes entrassem lá, porque os agentes apontavam as questões insalubres”, conta Neto. 

De acordo com o ex-gestor, chegou um momento em que os vizinhos registraram queixas pelo mau cheiro e a gestão negociou a retirada do material. “Era uma questão de saúde pública e ocorreu em várias outras moradias", de acordo com Neto, ao citar que a casa de Nô passou por mais de uma dessas grandes limpezas.

“Até me surpreendi com a história de que ela tinha manuscritos que foram juntos. É possível ter sido levado. Eu vi as fotografias da época do entulho, do lixo e do mato sendo retirado, e como eles não permitiam, não foi feito um trabalho com eles de conversa. É possível que tenha sido levado mesmo e se levou foi uma perda muito grande.”  Nô se queixava de ter um manuscrito sobre sua atividade na luta contra a ditadura que foi jogado fora nessa limpeza.

O ex-prefeito afirma que Maria Lidia frequentou por muitos anos um abrigo dos idosos administrado pela prefeitura. “Era frequentadora. Ela se enquadrava [nas regras para frequentar] e manteve relação com o CCI [Centro de Convivência de Idosos], onde havia alimentação todos os dias da semana”.

A documentação de Maria Lidia que sobreviveu à faxina sanitária e ficou quase um ano sob a custódia de Aurelino Pires não guardava relação com o passado guerrilheiro dela. Eram os documentos originais de Marco Polo e da certidão de nascimento dela e cópias dos documentos de identidade dela, e as escrituras dos terrenos aonde ela morava mais outro que tinha em frente, ao todo são 8 terrenos." O material era para subsidiar o inventário que depois acabou desistindo de fazer. 

Durante essa relação com Pires, entre a morte de Marco Polo e o assalto que mudaria a história de Nô, ela chegou a pedir ajuda para rever a família. "Era o sonho dela ir pra lá, ela falava pra mim e depois que o Marco morreu ela dizia:  - eu preciso ir pra lá. Aí eu falava pra ela, pra mim achar a sua família, primeira coisa é a senhora me dar o seu nome mesmo, como é que eu vou achar, eu tenho que saber o seu nome, o nome da família, aí eu posso começar a investigar, caso contrário não tem jeito.

“Ela me disse várias vezes: olhe eu vou lhe contar tudo e o verdadeiro nome, porque o meu sonho é voltar para minha família. Era o sonho dela. Pouco depois que o Marco Polo morreu ela me disse: - me ajuda, eu preciso localizar minha família. E eu pedia um nome. E ela falava: - eu sei onde é. Mas dona Maria Lidia, a senhora sabia há 50 anos, tudo mudou. Como é que a senhora vai chegar lá em São Paulo procurando um endereço que não sabe nem se ainda existe, mudou muito”, relembra Pires.

Pires conta que ela revelou alguns nomes de locais onde havia trabalhado, mas ele não os localizou por terem mudado de nome ou por não existirem mais, além de atuar na imprensa. “Ela contava que era jornalista, que fazia matéria para jornais em São Paulo e que o jornal onde trabalhava foi invadido na época da ditadura, pela polícia, e aí começou uma caça aos jornalistas, era um jornal mais de esquerda.”

Nô levava a vida clandestina colinense produzindo peças artesanais de cimento, nas dependências da indústria dos companheiros. “A Maria Lidia era artesã, quando o Marco Polo tinha a indústria de pré-moldados, ela fabricava vasos de flores, fazia esculturas, ainda tem alguns na tapera dela, de cimento. Ela fazia e vendia”, lembra Pires.  

Frederico, a terceira pessoa a habitar a casa era um sócio. "Não sei se sócio formal, mas ele agia em sociedade na empresa, mas eles se separaram e ele foi embora, há muito tempo, não sei se ainda é vivo".  O ex-prefeito José Santana Neto afirma que Frederico era um português e teria deixado a sociedade por desentendimentos com o sócio envolvendo a propriedade e a produção industrial. 

Pires assegura ter ouvido de Maria Lidia que o dinheiro usado na compra dos lotes e na montagem da indústria era dela, mas teriam ficado em nome de Marco Polo por motivos de segurança. "Ela dizia que tudo tinha sido comprado, os lotes a indústria, com dinheiro dela, mas por um tempo não ficou no nome dela, porque não podia, depois passou os lotes para o nome dela."

Pires a ajudou Maria Lídia pela última vez na ocasião de receber benefício social, pouco antes de ser descoberta. "Ela foi só, sem documento. E o gerente, como vou pagar a senhora sem identidade sem nada. Mas vocês me conhecem e aí falou em meu nome. O seu Aurelino tem os meus documentos e me ligaram aqui. Fui lá, mas ela tava num advogado, o Paulo Ramos. Busquei ela, levei no banco, e pagaram ela. A gente tinha dificuldade de lidar com ela, tinha o gênio difícil, mas era muito inteligente”.

Na visão dele, o receio de se relacionar e se abrir com outras pessoas sobre o passado seria ainda por medo da repressão, da ditadura. "Todo dia que a gente ia lá, ela falava nisso. Tinha dias que ela acreditava que havia acabado a ditadura, mas tinha dia que ela achava que a ditadura não havia acabado e, na cabeça dela, tinha de ficar entrincheirada se escondendo da ditadura”. Nesses dias, Pires recorria a um artifício. “Eu buscava a Roseli, minha esposa, para ser atendido. Mas ela não chamava para dentro da casa. Nunca chamava para entrar. Conversava de fora.”

 

Dona Bela, a costureira e amiga mais antiga de Nô

Mas uma pessoa em Colinas jamais teve problema algum para entrar naquela casa. A costureira Florisbela Maria de Sousa, conhecida como Dona Bela, de 73 anos.  Uma pessoa bastante simples no falar, Bela era “vizinha de muro”, como diz a costureira, que afirma ser de confiança da ex-clandestina, de quem era amiga há pelo menos 35 anos.

Dona Bela fazia reparos nas roupas de dona Lídia e de Marco Polo. “Eu costurava as dela e para ele. Ela só gostava de calça comprida, camisetinha de manga e uma camisa, assim feito um jaleco, de manga, por cima da camisetinha.” 

Ela se recorda do apego de Maria Lídia por animais. Primeiro, eram os cães. “Eram muitos. De noite era muito barulho, mas eles foram adoecendo e morrendo de um em um, aí ela se apegou com gatos”. 

 

Por muitos anos a casa de Maria Lidia não teve energia elétrica e nem geladeira. “Em junho agora ia completar um ano que [amigos] deram  uma geladeira pra ela.” Nesse tempo, era Dona Bela quem fornecia água gelada à vizinha. “Eu colocava o litro [garrafa pet com água] no congelador da minha geladeira e levava para ela e ela colocava dentro do isopor, e quando ia acabando, eu levava mais ou ela pegava aqui em casa.”

Também servia comida depois que passaram a roubar o botijão de gás da casa da vizinha, que preferia comida caseira em vez da comida que o restaurante entregava na marmita, todos os dias, após a morte do ex-companheiro, por articulação de um grupo de amigos. “A comida do restaurante ela achava muito forte, ela me pedia comidinha bem simples, era quiabo, abóbora e jiló.”

“O café ela tomava aqui quando ia na padaria ou na casa dela no dia que não tava disposta, aí eu ia na padaria e levava pra ela, era assim dois pães de queijo, um bolo de milharina (fubá de milho), dois mangulões (bolo regional do Tocantins) e também cuscuz. Ela gostava muito de cuscuz e ovos cozidos”.

Dona Bela diz que tentou convencer a amiga a procurar a família após a morte de Marco Polo. “Eu perguntei o que te levou a parar nesse oco do mundo, sem família. Ela disse, não, é porque eu era contra a ditadura, eu precisei fugir, ah, tá explicado, mas isso já passou, tá em tempo de procurar seus parentes, uma hora a gente precisa.” 

Ela também propôs que morassem juntas, após a morte de Marco Polo. “Mas ela não quis morar comigo e eu não podia morar com ela. Mas eu sempre pegava com Deus que ainda apareceria alguém pra tomar de conta”.  

Dona Bela diz que a vizinha era muito “trabalhadeira” e sabida. “Escrevia programa de rádio, de cultura, educação e fazia era comentários... ela também escrevia discurso para os políticos”, diz, embora não se recorde de quais políticos.

Ela conta que a sobrinha paulista de Dona Nô, que veio buscá-la, lhe procurou para que fosse ver Maria Lidia no hotel. “Eu fui no hotel todos os dias. Um dia antes dela ir embora, eu passei a tarde com ela, ajeitei ela e a malinha dela. E e ela pediu para eu cuidar dos 11 gatos dela. Tão tudo aqui. Eu tou levando ração pra eles, até alguém querer [adotar] ou alguém levar esses gatos para ela.”

Nô está em Andradas (MG) com a sobrinha Leila, 80 anos, filha de Telezila Carrato Anacleto, a irmã mais velha de Nô, falecida há 10 anos. Além de Leila, Telezila teve mais dois filhos, Lineu, 73 anos, e Luciene, 53, que rompeu os quase 2 mil km entre São Paulo, onde é produtora, para buscar a Nô em Colinas.  

Leila passou a viver só desde 9 de dezembro de 2019, após 49 anos de casamento com um fiscal de rendas, que passou anos acamado, sob o zelo dela e de quatro cuidadoras profissionais.  A sobrinha é o bebê que Nô embala na imagem, registro de um dos passeios que a tia fazia para Itamogi cidade natal de Nô, e onde a matriarca da família, Maria Rodrigues, morou com parte da prole de 13 filhos (só 10 sobreviveram).  

 

 

"Quando eu tinha 12 anos, lembro de quando ela ia em Itamogi, minha terra. A gente ia nadar. Então tem muita foto nossa nadando", lembra Leila. "Quando ela vinha trazia maçã, por antigamente maçã era só importada, ela levava maçã pra mim, me levava pra praia, quando eu tinha meus dez, 11 anos. Eu sofri muito quando ela desapareceu. Mas eu nunca acreditei que ela tinha morrido, eu sempre falava que um dia ela ia voltar. Agora eu tinha até esquecido dela e ela apareceu", conta, sorrindo.

Em razão da pandemia do novo coronavírus, apenas uma cuidadora havia sido afastada por Leila, porque atua na linha de frente da enfermagem de um hospital. As outras três, mantidas mesmo após a morte do esposo, se revezam no acompanhamento da ex-clandestina desaparecida meio século. Nô agora vive em uma moradia preparada exclusivamente para ela, conjugada à casa da sobrinha que havia perdido o marido havia quatro meses quando recebeu a ligação de que Nô havia sido descoberta no interior do Tocantins. "Eu quero que ela viva muito feliz aqui. Ela sempre foi uma tia sempre presente em nossa vida, muito mesmo".

Com a volta de Nô, a família finalmente teve a resposta para a dúvida que atormentou a todos por anos, sobre o motivo de Leonor ter sumido e não ter mantido contato durante tanto tempo. Depois de desaparecida, narra Leila, a tia remetia dinheiro regularmente para a mãe, que ficara viúva na década de 40. "Ela nunca desamparou a mãe, sempre mandava dinheiro para minha avó", revela. A última notícia recebida pela família de Leonor foi uma carta no Natal de 1967, ano de sua fuga. Depois, o silêncio de meio século.

"Ela me contou que uma pessoa a reconheceu em Goiás e mentiu que a minha avó tinha falecido de desgosto porque ela havia sumido. Ela se sentiu tão culpada e nunca mais procurou". Era mentira mesmo. A mãe de Nô, Maria Rodrigues, faleceu aos 105 anos. "Nunca deixou de acreditar que a filha estava viva", finaliza Leila.