A mesa de pebolim atravessada em uma das portas do Bar do Barbosa, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, pode-se ver os jogadores de camisa azul. O time adversário está na parte da mesa que continua coberta pela lama que destruiu o local há cinco anos com o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco -- controlada pelas mineradoras Vale e BHP  --, deixando 19 mortos.

Na escola municipal de Paracatu de Baixo, outro distrito do município, na prateleira de uma das estantes de metal retorcidas pela onda de lama ainda estão as caixas de giz que seriam usadas em sala de aula. Em meio ao mato que cresceu, seguem pedaços de uma cama, um sofá, um fogão.

Meia década depois do maior desastre ambiental da história do Brasil, que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério na bacia do rio Doce por uma extensão de 663 quilômetros, os moradores das comunidades no caminho da lama ainda esperam a conclusão de indenizações, o reassentamento com novas casas e justiça.

Nenhuma pessoa ou empresa foi punida pelo rompimento. Depois de aceitar a denúncia do Ministério Público Federal contra três empresas e 21 pessoas, a Justiça foi retirando réus do processo e mudou a acusação inicial de homicídio para o crime de inundação com resultado morte.

Hoje, o processo segue contra cinco pessoas e as empresas -- são sete pessoas e quatro empresas se considerar outros crimes, como o despejo de rejeitos pela Vale sem informar as autoridades.

Em setembro, os Ministérios Públicos Federal e de Minas Gerais, junto com as Defensorias Públicas de Minas, do Espírito Santo e da União, pediram a retomada da Ação Civil Pública suspensa desde 2018 contra as mineradoras, a União e o estado de Minas. A ação calcula em R$ 155 bilhões as reparações.

Na tarde de 5 de novembro de 2015, Paula Geralda Alves, 41, que trabalhava em uma terceirizada da Samarco, andava de moto perto da comunidade de Bento quando ouviu em um rádio de comunicação da mineradora sobre o rompimento da barragem. Foi ela quem saiu pedindo que os moradores corressem, já que não havia sirenes.

A filha de sua prima, de 5 anos, morreu no desastre. "Eu achei que em cinco anos estaria na minha casa, mas está longe de acontecer", diz Paula, que vive provisoriamente em Mariana, esperando reparação integral.

Sandro Sobreira, 46, se salvou indo para a parte mais alta de Bento junto com a mãe de 73 anos, que quebrou o dedo do pé na corrida. Hoje, a casa que era dos pais é um amontoado de lama, ruínas e metal retorcido na esquina contrária a escola. Da casa dele, pouca coisa ficou. O pedido de indenização pelo terreno segue na Justiça.

Nos fins de semana, ele e outros moradores, os "Loucos por Bento", costumam dormir em uma das casas não atingidas para relembrar histórias juntos. Eles querem que o distrito seja tombado, o que está em tramitação no Compat (Conselho Municipal do Patrimônio Cultural) de Mariana.

"Dói muito quando a gente vê o estado que ficou. Se você perguntar ao meu pai hoje, a primeira coisa que ele quer é que tirem a lama da casa dele", diz Mauro da Silva, 51, um dos participantes.

Bento é hoje uma coleção de ruínas e lama a céu aberto. Ainda se vê o fogão e uma geladeira suspensos no teto de uma casa, mostrando a violência da onda de rejeitos. A capela São Bento, construída em 1718, parte do trajeto da Estrada Real, foi destruída.

A maioria dos moradores desse que foi o primeiro distrito de Minas vive hoje em Mariana a espera do reassentamento coletivo ou de indenizações definitivas. A Fundação Renova, criada para tratar das reparações, diz que elas são tratadas dentro da Ação Civil Pública e que por isso não ha previsão de conclusão.

Segundo a Renova, o andamento das obras foi impactado pela pandemia do novo coronavírus e os prazos foram influenciados pelo processo coletivo de tomada de decisões, com atingidos e outros entes. Até agosto, diz a fundação, 211 famílias haviam se cadastrado para viver no reassentamento e 140 projetos de casas foram protocolados na prefeitura de Mariana.

Os atingidos se acostumaram a ouvir pessoas dizendo em farmácias ou mercados que deles podem cobrar mais, porque estão ricos ou vivendo de benefícios.

Nas escolas, houve episódios de crianças sendo chamadas de "pés de lama" ou "meninos da lama". Segundo moradores ouvidos pela reportagem, o acesso a ônibus pago pelo Renova e uma ação de Natal voltada apenas para os atingidos, promovida em uma escola geraram ciúmes, e a fundação teve que destinar duas escolas exclusivas para alunos de Bento e Paracatu.

O reassentamento de Paracatu, atingida horas depois de Bento, pode demorar ainda mais. Ao passar pelas obras, cujo acesso é controlado pela Renova, percebe-se que o projeto ainda está em fase inicial de infraestrutura. Estão cadastradas para viver ali 98 famílias.

Com a chegada da lama, moradores correram para terrenos mais altos e, depois, foram removidos devido situação de risco. Alguns, como Geraldo de Paula, 66, que não tiveram a casa destruída, voltaram meses depois. A vida ali, que antes era de movimento e fins de semana com festas, agora segue com apenas oito famílias e a passagem de caminhões de obras.

"O pessoal aqui era feliz e não sabia", diz Geraldo. "O pior já passou, o trauma agora é só do rolo da Renova, que não decide nada. Só sei dizer que feliz, não tem ninguém."

"A gente espera que a Renova pare de renovar o crime que vem ocorrendo a cada dia. Já são cinco anos", diz Luzia Queiroz, 58, que vivia entre Mariana e a Paracatu e espera ser reassentada.

Enquanto atingidos esperam, a Renova está restaurando a praça Gomes Freire, um dos cartões-postais de Mariana, o Jardim.

O prefeito Duarte Ribeiro (Cidadania) diz que o município perdeu R$ 70 milhões de receita anual com o desastre e que houve dificuldade para que alguns danos, como a paralisação do tempo integral, fossem reconhecidos.

"A principal consequência foi o erro, de todos nós, de construir a Fundação Renova. A gente criou algo para ser ágil e rápido, que foi muito mais burocrático que o poder público, com custo muito mais alto. O que o poder público contrata por R$ 1, eles pagam R$ 3", avalia.

As obras do terceiro reassentamento coletivo previsto, em Gesteira, distrito do município de Barra Longa, sequer começaram. A Renova diz que 37 famílias são elegíveis e que fechou oito acordos para restituir moradia fora do novo lote.

A casa de Juliana Silva, 36, no terreno da mãe, foi destruída pela lama. Nos últimos cinco anos, ela perdeu a mãe e um dos irmãos e conta que ainda luta para conseguir auxílio emergencial, apesar de ter perdido renda extra de cerca de R$ 1 mil que ganhava com a roça e que complementava seu salário de atendente de padaria. A justificativa da Renova, diz ela, é de que ela não perdeu o emprego por causa do desastre.

"Só decepção que a gente tem passado desde o rompimento da barragem. Eu comecei a ter problema de saúde, entrei em depressão e agora estou desempregada", conta.