O romance “1984” publicado  no dia 8 de junho de 1949 na Inglaterra, produziu uma espécie de frenesi na sociedade inglesa e ,posteriormente, noutras sociedades  vítimas do Estado autoritário, que  oprime aqueles que divergiam da ideologia oficial. Foi um ambiente como esse que a vida do protagonista dessa história, Winston Smith, se tornou um inferno materializado não só de torturas psicológicas, mas, também, nas traições de um  ambiente que tinha na denúncia uma das formas de controle sobre a  sociedade. O Mundo dele era o do enquadramento ideológico. Nesse contexto, o “sistema” vigiava  a todos  dia e noite.

Qual foi a importância de 1984 para literatura desse século?

George Orwell ao Denunciar as mazelas do autoritarismo de um governo na fictícia Oceania(Londres), estabeleceu uma previsão que os anos mostraram ser uma realidade: o governo das grandes potências iria monitorar a vida dos seus cidadãos. O regime político da Coréia do sul, Rússia de Putin ou, até mesmo, a Cuba de Fidel são evidências  que dão consistência às previsões estabelecidas pelo autor.

O contexto repressivo expresso em frases intimidatórias como “O grande irmão está de olho em você” se materializava nas inúmeras teletelas , espécie de câmaras espalhadas  por todos os cantos. Além disso, o incentivo à delação criava um ambiente tipo Big Brother, bem mais apavorante do que cópia televisa desse clássico da literatura mundial. De repressor para repressor falemos Franz Kafka.

“O Processo” do escritor Tcheco é  um livro que demonstra  a presença do estado que restringi e tortura psicologicamente   um certo Joseph K que é detido numa manhã sem ter feito mal algum. Kafka teve o talento de construir uma atmosfera de pesadelo que beira com o surreal. O rompimento brusco do cotidiano na vida de um cidadão, sem justificativa legal, caracteriza a natureza repressora do estado. No transcorrer da sua peregrinação da busca  pela verdade, Josef K defronta-se com o aparato burocrático do estado opressor.

Outro autor que merece destaque  na incansável luta que ele trava contra regimes autoritários de poder é o Nobel Mário Vargas Llosa. A Academia Sueca, responsável pela escolha dos laureados ao mais importante prêmio literário do mundo, relatou que o conjunto das obras Vargas Llosa era merecedor do Nobel, pelo fato dos romances dele reproduzirem  “vigorosas imagens das estruturas do poder”. Dito de outro modo: o que notabilizou os escritos desse notável escritor peruano,  centra-se  na capacidade que ele teve de construir romances políticos voltadas para denunciar as atrocidades do estado repressor.

Lutar contra qualquer falta de liberdade e o autoritarismo de regimes como Cuba, Irlanda Brasil e Peru são temas constantes nos mais de 30 livros produzidos pelo autor de “Pantaleão e as visitadoras. Posto isso, façamos um tour pelas principais obras desse grande escritor.

Em “Batismo de Fogo”, ele ,por imposição paterna, vai estudar no colégio Leoncio Prado. Vive a vida dura dos quarteis e ao sair de lá denuncia  essa estrutura perversa. Em “Conversa No Catedral”, que na verdade é um bar na cidade de Lima, e não uma Catedral, Zavalita,um jornalista oriundo da classe média-alta peruana, encontra Ambrósio, antigo motorista do pai dele. Assim, enquanto, fumam e bebem no Catedral, Zavalita e Ambrósio recompõem o panorama político peruano dos anos 1950 na época em que governava o Peru general Manuel Odria. Nas  mais de 500 páginas desse extraordinário romance, a crítica aguçada a ditaduras do país e da América Latina são, sob o olhar, desse notável escritor peruano, propagadas pelos quatro cantos do mundo.

Um exemplo tipicamente gerado pela ausência de estado foi o da guerra de Canudos,de Euclides da Cunha. Esse conflito, romanceado por Mário Vargas Llosa, resultou numa obra  que muito contribui para que o autor de “Conversa No Catedral” fosse laureado com o Nobel de literatura. Após quarta tentativa de vencer Antônio Conselheiro e seus seguidores,  o estado repressor entrou em Canudos sem  que os sertanejos jamais se entregassem.

Creio que agora podemos concluir. É considerável a quantidade de obras literárias voltadas para denunciar as atrocidades oriundas do estado repressor. Por essa razão,  muitos leitores defendem a ideia de que literatura boa é aquela oriunda da repressão de um povo. Não deixa de ser verdade. Por intermédio da literatura, o mundo tomou conhecimento das atrocidades do regime russo, que o diga “Arquipélago Gulag” do escritor russo Aleksander Soljenitsyn que mostrou para o mundo afora os terrores do stalinismo nos campos de trabalhos forçados da antiga União Soviética. Que o diga  “A Festa do Bode” de Vargas Llosa que relatou as atrocidades do ditador Rafael Trujillo na República Dominicana. Coincidência, ou não, a Rússia, a Inglaterra, república Tcheca e, até mesmo, a Irlanda de Joyce é um celeiro de autores compromissados com denúncia. Aquele grito revolta  contra os opressores só a boa literatura é capaz de ecoar pelo mundo afora.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, bacharel em Administração de empresas, mestre em energia pela Unicamp. Autor de oito livros relacionados aos temas energia, economia, desenvolvimento regional e literatura.

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