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Tocantins em Cannes

Filme gravado em aldeia Krahô compete na mostra Un Certain Regard, que tem Benício del Toro no júri

Concebido e gravado em terras tocantinenses, o filme Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, dirigido por de João Salaviza e Renée Nader Messora, está entre as produções da mostra que serão exibidas no Festival de Cannes 2018. O longa concorre na mostra Un Certain Regard ( Um Certo Olhar), que é uma sessão dentro do festival, com outros vinte filmes selecionados mundialmente. Essa mostra terá como presidente do júri o diretor Benício del Toro. A primeira exibição da produção acontece hoje e uma segunda amanhã.

O filme foi rodado ao longo de nove meses na aldeia Pedra Branca, de terra indígena Krahô, localizada em Itacajá (TO). A produção gravada toda analogicamente conta a história de Ihajã, um jovem da aldeia que após encontrar o espírito do pai falecido se sente obrigado a participar da festa de fim de luto realizada pela cultura.

A produção mistura elementos de ficção e documentário, preservando a língua e os costumes locais. “O enredo é inspirado em uma história real e apresenta as facetas sociais dos indígenas que transitam entre os dois mundos, o do branco e de sua cultura”, comenta o diretor português João Salaviza. Além da direção de Salavizia e Renée, o filme contou a produção de Ricardo Alves e Thiago Macedo, em coprodução o com as empresas Karõ Filmes e a Material Bruto.

Trabalho

“Todo o trabalho começou bem antes das filmagens. Com uma relação que construímos com os Krahô ao longo de anos de convivência”, comenta a também diretora, Renée, que é brasileira, e esteve na aldeia desde 2009. Renée junto com Vitor Aratanha, que mora na região há oito anos e leciona sociologia e filosofia no local, a diretora trabalhou com a comunidade participando na mobilização do coletivo de cinegrafistas e fotógrafos indígenas Mentuwajê Guardiões da Cultura.

O trabalho do grupo é focado em uma utilização do audiovisual como instrumento para a autodeterminação e o fortalecimento da identidade cultural. Já em 2014, Salaviza conheceu os Krahô e se juntou ao trabalho de Renée e Aratanha. Foi assim que a concepção do filme começou e as gravações ocorreram em 2017.

“Primeiro gravamos um curta metragem, como um ensaio. Depois fomos adequando o material na medida que percebíamos quem seriam os personagens da história”, coloca a diretora ao afirmar que todo elenco é formado pelos próprios moradores da aldeia. “São dois protagonistas, mas em várias cenas mostramos outros moradores”, relata Salaviza.

“O trabalho quer dar voz a essa cultura e esses povos que são retratados de forma romantizada por vezes. Apresentar ao mundo a essência e desconstruir a imagem errada que é muitas vezes relacionada aos povos indígenas”, explica. Conforme Salaviza, a ideia é que se abram espaços para que o debate para que as questões indígenas possam ser pensadas.

Não sei dizer se o filme é uma ficção ou um documentário, é um pouco dos dois, além disso ele é todo na língua krahô e legendando em português”

João Salaviza, diretor

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