Nos últimos anos, o Brasil enfrenta uma crise silenciosa e profundamente alarmante: a queda acelerada na qualidade de muitos cursos de Medicina. Paralelamente à expansão desenfreada das escolas médicas, vemos emergir um fenômeno trágico: o aumento avassalador do número de processos judiciais por erro médico. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), em 2023, foram registrados 12.268 processos judiciais por erro médico no país. Em 2025, esse número saltou para 74.358 ações – um crescimento de 506% em apenas dois anos. Embora parte desse aumento deva-se à maior conscientização dos pacientes sobre seus direitos, há uma causa ainda mais inquietante: as falhas gritantes na formação e capacitação de uma parcela significativa dos novos médicos. Nunca foi tão fácil abrir um curso de Medicina no Brasil – e nunca foi tão arriscado formar-se em um deles. Espalham-se por todo o território nacional escolas de Medicina que mais se assemelham a empreendimentos comerciais do que a instituições acadêmicas. Sem infraestrutura mínima, sem hospitais-escola, sem laboratórios e, muitas vezes, com corpo docente improvisado, essas instituições oferecem uma formação superficial, perigosa e mercantilizada. Como posso confiar num médico que cursa a importante cadeira de Anatomia em cadáveres de plástico? Essa pergunta resume a perplexidade diante da banalização do ensino médico. A experiência concreta, o contato direto com a realidade clínica, a vivência hospitalar – tudo isso foi substituído, em muitos desses cursos, por simulações precárias e conteúdos diluídos.