Todo início de ano repete o mesmo ritual. Promessas solenes, listas bem-intencionadas, frases motivacionais compartilhadas com uma convicção quase religiosa. “Agora vai.” Algumas semanas depois, o entusiasmo se dissipa. A academia esvazia, a dieta vira exceção, o livro recém-comprado permanece fechado na estante. Costumamos explicar esse fracasso com um diagnóstico rápido: falta de disciplina. Mas talvez o problema seja outro, mais profundo e mais incômodo. Talvez nossas escolhas não sejam tão livres quanto gostamos de acreditar. As promessas de ano novo falham porque nascem de uma fantasia moderna: a de que basta decidir algo conscientemente para que o comportamento mude. Como se o “eu” que promete em clima de virada fosse o mesmo “eu” que acorda cansado, reage ao estresse, cede ao hábito e repete padrões antigos. Na prática, escolhemos sempre dentro de trilhos já instalados, emocionais, biológicos, sociais e culturais.