O feminicídio não é um desvio ocasional da ordem social; é, muitas vezes, um produto coerente dela. Em Mato Grosso, estado que figura de forma recorrente entre os que apresentam altos índices de assassinatos de mulheres, essa coerência se revela na articulação entre cultura política conservadora, moral cristã sectária, desigualdades raciais e uma organização social que normaliza a violência como instrumento de controle. Para compreender o fenômeno, é preciso ir além da contabilidade penal e examinar a constituição da sociedade que o produz. A teoria da estruturação, de Anthony Giddens, oferece uma chave importante: as estruturas sociais — normas, valores, instituições — não existem fora da ação humana, mas são continuamente reproduzidas por ela. O feminicídio, nesse sentido, não ocorre apesar das normas sociais, mas frequentemente amparado por elas.