Confesso que há muito não lia um livro de diagnóstico político e econômico tão lúcido quanto provocador. A Vingança de Tocqueville, do economista Fabio Giambiagi, não é uma obra escrita para agradar, mas para despertar — e talvez esteja aí sua maior qualidade. Com estilo elegante, mas contundente, o autor formula o que considero uma das mais lúcidas leituras contemporâneas do atraso brasileiro: a incapacidade de levar a sério as bases institucionais da democracia. Giambiagi não escreve como um panfletário, nem como um moralista. Escreve como quem conhece profundamente os dados, os ciclos históricos e, sobretudo, o fracasso recorrente das elites nacionais em consolidar instituições sólidas. Ao evocar Alexis de Tocqueville, não o faz por mero recurso de erudição — mas para nos lembrar que a democracia, para funcionar, exige mais do que eleições: exige cultura cívica, descentralização efetiva, respeito aos freios e contrapesos. Onde essas engrenagens falham, a vingança vem. E ela se dá em forma de crises recorrentes, populismo travestido de redenção e estagnação econômica crônica.