Haverá um dia em que alguém ouvirá o meu chamado. Posso sentir que em um futuro distante, uma pessoa que não carregará o meu sobrenome, mas que terá o meu sangue, será seduzida pela minha história. Algumas gerações nos separarão, ainda assim ela sentirá o profundo desejo de desvendar os mistérios enterrados com as suas raízes. Apesar de não conseguir rastrear as minhas origens, como eu vivi, nem mesmo quantos filhos tive, ela tentará escutar os ecos da minha voz nas raras menções ao meu nome, e se esforçará para encontrar as palavras que preencherão as lacunas. Quando a curiosidade for despertada, todas as pessoas que nos ligam já terão morrido e, com elas, a verdadeira versão dos fatos. Ninguém saberá como sou fisicamente, não haverá pinturas do meu rosto e as casas que habitei não guardarão qualquer vestígio da minha presença. Tampouco saberão o que vivi nesses tempos de política efervescente, nessas paragens longínquas, onde as mulheres não têm direitos e os seus feitos são apagados como os sobrenomes que perdem quando se casam.