Somos verdadeiros contadores de histórias sobre nós mesmos e sobre aqueles que nos cercam. A vida social é, em grande medida, organizada por narrativas, o que é perfeitamente natural. Raramente deixamos de contar histórias nas quais somos os protagonistas, muitas vezes os heróis, de nossos próprios enredos. Não apenas descrevemos a realidade, mas a interpretamos, a editamos e a reconstruímos continuamente por meio de histórias que conferem sentido às nossas trajetórias, escolhas e pertencimentos. O risco inerente emerge quando a interpretação da realidade deixa de encontrar correspondência com a própria realidade. Nesses casos, instauram-se tensões que podem se manifestar em diferentes níveis, inclusive na saúde mental e na própria construção social da mentira. A não integração entre narrativa e evidência empírica configura, em termos analíticos, uma forma de desintegração entre as múltiplas dimensões do real. As máscaras sociais, ainda que necessárias aos processos de socialização, podem tornar-se disfuncionais quando excessivamente distanciadas da experiência vivida, gerando fragilidades cognitivas e emocionais, especialmente em contextos marcados pela circulação intensiva de informações distorcidas ou falsas.