Em março de 2007, Barack Obama e Hillary Clinton chegaram a Selma, no Alabama, com a consciência de que aquela travessia não seria apenas geográfica. Ao pisarem na ponte Edmund Pettus, entravam em território sagrado da memória política americana, onde cada passo ecoa as dores e as vitórias da luta pelos direitos civis. Ali, não havia espaço para gestos vazios. O eleitorado negro, fundamental para qualquer pretensão presidencial democrata, observa com rigor quem compreende o peso histórico daquele chão. A ponte é indissociável do “Domingo Sangrento” de 7 de março de 1965, quando cerca de 600 manifestantes pacíficos — liderados por John Lewis e Hosea Williams — marchavam de Selma a Montgomery exigindo o direito ao voto. Foram recebidos com cassetetes, gás lacrimogêneo e cavalaria policial. As imagens, transmitidas pela televisão, causaram comoção nacional e pressionaram o presidente Lyndon B. Johnson a sancionar, cinco meses depois, o Voting Rights Act, que derrubou barreiras discriminatórias impostas aos eleitores negros no sul dos Estados Unidos.