Sophie Charlotte entendeu que havia caído nas graças dos noveleiros quando descobriu que uma recém-nascida recebeu os nomes Gerluce e Angelina. É como chamam as personagens mais importantes que a atriz já fez. Angelina, sua primeira mocinha de todas, numa Malhação de 19 anos atrás, e Gerluce, sua primeira protagonista no horário nobre, a heroína de Três Graças.Gerluce rendeu a Charlotte elogios do público, dos colegas de elenco e do autor da novela, Aguinaldo Silva. Mais importante, talvez, é que, aos 37, a atriz diz estar finalmente se permitindo um pouco de vaidade.“Passei muito tempo, uns 20 anos, calçando as sandálias da humildade. Pensava - não, calma, o trabalho é coletivo?. Mas, pô, vibrar essa conquista tem sido um aprendizado. Agora a novela acabou e vou ter de parar de flutuar”, afirma ela.Para exercitar a pompa recém-descoberta ou potencialmente acabar com ela, Charlotte acessava o X para pesquisar o nome de Gerluce e espiar o que estavam achando da sua performance. Decisão arriscada, segundo ela, mas bem pensada. Três Graças teve 10,5 milhões de menções espontâneas nas redes sociais, o dobro da antecessora Vale Tudo, segundo a Globo, numa conta que abarca X, Instagram, Facebook e YouTube.“Não é simples, precisa entender a dinâmica das redes sociais. Ali tudo é imediato, não passa por filtros, então os comentários carregam muita paixão”, diz a atriz. “Mas são tempos diferentes e esse é o termômetro ao qual eu tenho acesso. O Ibope só chega depois, e a gente também não tem acesso aos números de quem vê pelo streaming. Só sabemos o que nos contam.” A audiência acompanhou a repercussão. Três Graças empatou em audiência com o remake de Vale Tudo, chegando a 25 pontos na Grande São Paulo.Gerluce ganhou uma espécie de defesa organizada, tipo de torcida que há tempos não existia por uma mocinha de novela das nove. Entre o dramalhão e o bom humor, a heroína virou uma espécie de antídoto contra o desgaste das últimas protagonistas das nove.Na premiação Melhores do Ano, do Domingão com Huck, que contempla apenas obras da casa, Três Graças foi eleita pelo público a novela do ano, batendo Vale Tudo. Na internet, porém, a vitória acabou ofuscada pelo novo exército de Charlotte, que se indignou porque ela não havia sido indicada nem convidada - o troféu de melhor atriz foi para Grazi Massafera, a vilã de Três Graças.Charlotte diz que não ficou magoada com a emissora, mas impressionada com a repercussão, especialmente após o vídeo em que gravou, do sofá de casa, para celebrar o prêmio. Por isso, Aguinaldo Silva, o autor, foi depois ao Instagram dedicar a Charlotte o troféu da novela, dizendo que seu prêmio era todo dela.Em entrevista por e-mail, Aguinaldo diz que criou Gerluce pensando nas heroínas que a italiana Sophia Loren fez nos filmes de Vittorio De Sica - populares e barulhentas, distantes da elegância contida das divas dos anos 1960. “Foi exatamente o que ela me deu. Uma Sophia revista e ampliada por Sophie.”Para compor Gerluce, Charlotte seguiu um registro passional, com espaço para leveza, mas não menos dramático. Diz que pareceu ser esse o caminho mais realista para retratar a lida de mães solteiras - na trama, sua filha vive uma gravidez precoce após a própria Gerluce e sua mãe engravidarem quando adolescentes. Não é a primeira vez que Charlotte encarna um tipo central no debate social. Há quatro anos, ela interpretou uma jovem com deficiência visual, Maíra, a protagonista de Todas as Flores, novela do Globoplay. Mas a escalação de uma atriz que enxerga foi alvo de questionamentos. “Era delicado”, ela relembra. “Tinha um compromisso com a questão do capacitismo.”A antagonista de Maíra é Vanessa, vivida por Letícia Colin, que agora substitui Charlotte na liderança das nove com Quem Ama Cuida. “Sophie é coerente, profunda. Tem um estado de escuta, de verdade”, diz Colin.Em Todas as Flores, Charlotte contracenou também com Caio Castro, que conheceu lá atrás, quando fizeram um casal em Malhação. Sua primeira protagonista era apaixonada por música, e Charlotte cantava de verdade nas gravações. Ali nasceu uma faceta que só depois viraria fonte de renda. Em 2014, ela gravou Sua Estupidez, clássico de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, para a novela O Rebu. No fim do ano, o Rei convidou a atriz para apresentar a canção no seu tradicional especial da Globo.Mas foi só oito anos depois que Charlotte perdeu de vez a vergonha dos palcos, graças à cinebiografia Meu Nome É Gal, em que interpreta a cantora Gal Gosta. No final do ano passado, a atriz encarnou Gal num protesto contra o PL da Dosimetria, em Copacabana, no qual cantou Vapor Barato, clássico da cantora baiana. Na última eleição presidencial, Charlotte declarou voto em Lula. “Isso vem de uma necessidade. O outro caminho é desumano, retrógrado. A ascensão da extrema direita é impensável. Um Estado não laico é impensável, os direitos das mulheres estarem ameaçados é impensável. Mas é o que estamos vivendo.”Outro espaço em que Charlotte se aventurou foi o set de gravações de um filme internacional, O Assassino, do americano David Fincher, diretor de Clube da Luta e A Rede Social. Ela conseguiu o papel por intermédio de um empresário americano que abria uma produtora no Brasil e vinha sondando atores do País. Achou que Charlotte combinava com a personagem - a namorada do protagonista, feito por Michael Fassbender. “Sei que só tenho duas cenas, mas foram momentos importantes para o David, que refizemos várias vezes porque cada detalhe importava”, diz ela. Como o longa saiu em 2023, em plena greve dos atores americanos, Charlotte ficou impossibilitada de promover a obra, que acabou esquecida rapidamente. “O mais legal foi entender que tenho um ofício que comunga com outras línguas.”Charlotte é fluente em alemão. Nasceu em Hamburgo, filha de um pai paraense e mãe alemã, se mudou para o Brasil aos 7 anos - os avós se encantaram por Búzios, e o pai sentia falta da terra natal. Morou em Niterói até a adolescência, fez os primeiros trabalhos como atriz em Malhação e se mudou para o Rio de Janeiro, para se aproximar da fábrica de televisão, em busca dos seus momentos de graça.