Dezembro sempre chega com brilhos e promessas, mas também carrega memórias que pesam nos ombros. Nesse mês, costumo lembrar de percas que parecem se repetir como estação teimosa. Entre enfeites nas ruas e gente apressada, percebo que algumas recusas encontraram espaço justamente quando os dias estavam mais ásperos. Nada combina menos com clima festivo do que a sensação de portas se fechando. Eu tentava disfarçar. Andava com passos firmes, palavras medidas, um sorriso quase convincente. Por dentro, porém, a sensação era de estar me afundando devagar, como quem desce um rio silencioso sem margem por perto. Cada recusa deixava um sulco novo na pele da alma. Até meus irmãos se afastaram. Os de sangue e os da ordem. Disseram que enfrentavam algo sério, que precisavam de um tempo distante, que depois, quando tudo melhorasse, poderíamos nos reencontrar. Engoli a notícia como quem recebe um golpe que não esperava. A casa, antes barulhenta de lembranças, ficou grande demais.