Bicho viaja sim. É gente que quase não viaja, de tão besta que fica por causa de bicho. Eu me tornei o que mais temia: mãe de pet, “une femme au chat”, para usar a antiga expressão francesa, e ainda une “femme au chien,” porque sou não apenas uma mulher com um cão, mas uma mulher do cão, isto é, uma mulher que mais pertence ao cão do que a si mesma. Minha cachorrinha Aurora é que me prende pela coleira e não o contrário. Eu havia programado uma viagem em família, e não tinha com quem deixá-la. Ora – me dirão – desde que o mundo é mato a função dos cães é vigiar a casa. Mas não ela, não grande parte dos cães da atual geração. A salsicha não só não atentaria para a entrada de um ladrão, como iria recepcioná-lo com lambidas. E certamente iria convalescer de solidão. Com meus dois gatos, Netuno e Cariño, não me preocupo tanto. Basta que a vizinha lhes dê ração, que na casa permanecem. Já Aurora eu não poderia deixar só enquanto viajasse, de modo que cogitei pedir a amigos que cuidassem dela. Porém, nenhum poderia assumir tal tarefa: este porque já tem um gato de temperamento difícil. Farofa parece uma dona onça e ataca até mesmo o próprio dono à sorrelfa. Aquele porque já possui, além de cinco cães, uma coelha, um peixe, um passarinho e um menino de 10 anos que acabou de lhe exigir também um jabuti.