O café chega forte à xícara logo cedo, escuro como certos episódios guardados nas gavetas do tempo. Na estação de trabalho, entre a fumaça do copo e o barulho dos teclados, percebo como a escrita diária insiste em nos ensinar sobre a fragilidade das promessas humanas. Cobrir o cotidiano significa caminhar na fronteira exata entre o discurso bonito das autoridades e a vida real que pulsa desamparada nas ruas. Lembrei-me do marinheiro João Cândido e de seus companheiros, marcados pelo lombo rasgado na chibata, que se revoltaram para resgatar a própria humanidade. Eles acreditaram no aperto de mão do poder público, entregaram os canhões e viram a palavra de honra ruir entre celas sufocantes cobertas por pó de cal. Uma traição antiga que insiste em ecoar no presente sempre que o Estado decide salvar a si mesmo.