BALNEÁRIO CAMBORIÚ, SC (FOLHAPRESS) - Quando um homem rico chega a uma cidade, como sabia Jane Austen, as coisas podem ficar agitadas. Quando prometem uma cidade cheia deles e os homens não dão as caras, a situação pode se complicar.Foi mais ou menos o que ocorreu na noite de quinta-feira (28), em Balneário Camboriú (SC). Lá, dezenas de mulheres, de 20 a 40 anos, se reuniram num centro de eventos à beira-mar com o mesmo objetivo: encontrar um "sugar daddy", termo usado para descrever homens ricos que gostam de mimar as pretendentes. Em geral, com presentes de marcas como Louis Vuitton, Gucci, Versace, BMW e Mercedes.O evento, em sua segunda edição, foi promovido pelo MeuPatrocínio, plataforma voltada a adeptos desse tipo de relacionamento. Santa Catarina tinha quase 1 milhão de usuários ao final de 2025. No país, mais de 16 milhões, segundo dados da empresa.A festa havia sido planejada para reunir quatro mulheres para cada homem, totalizando cerca de 150 pessoas, diz Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e relacionamentos do MeuPatrocínio. A conta, portanto, significava aproximadamente 30 homens.A dinâmica deveria funcionar como uma dança das cadeiras. Uma sai, outra chega. Porém, naquela noite, faltaram assentos. Muitos "daddies" compraram ingressos e não foram, disse a plataforma à Folha. Muitas "babies" faltaram também.No bar, no banheiro, nos cantos, ecoava a mesma pergunta entre as mulheres: "Cadê eles?"No auge da festa, por volta da meia-noite, a reportagem contou menos de 20 "daddies", de várias idades, estilos e localidades. Até um de Mumbai, centro financeiro da Índia.Os indivíduos eram discretos --muitos com casamentos em crise ou divórcios recém-assinados-- e não buscavam somente satisfação, mas também companhia. Alguns pagam só pela atenção. Levam para fazer o cabelo, mudar o guarda-roupa, almoçar, viajar."É normal nem rolar sexo", conta Graciane Cabrera, 36, uma das mulheres que participaram da festa. "É até mais gostoso apenas conhecer a pessoa e absorver o conhecimento dela."Ela disse ter ido ao evento apenas para curtir, sem expectativas. Outras "babies", por sua vez, buscavam chamar a atenção dos homens quando eles passavam com uma encarada, uma piscadela ou um cumprimento desajeitado.A maioria das mulheres aparentava estar nervosa com a situação, até porque eram dez "daddies" a menos do prometido, diminuindo as chances de sucesso.Nem os drinks, e bastante champanhe, ajudavam na situação. A trilha sonora, funks consagrados em formaturas e bailes de debutante, e o calor causado pela ventilação fraca ajudavam a piorar o desconforto.Nesse clima, uma fofoca chegou para gerar mais incômodo.O ingresso masculino chegava a R$ 20 mil, segundo o MeuPatrocínio. Entre as mulheres, havia quem tivesse pago R$ 800 para estar ali. Outras, porém, diziam ter recebido convite da própria plataforma --muitas eram influenciadoras ou produtoras de conteúdo.As "babies" que pagaram tinham perfil parecido: mais jovens e, em alguns casos, movidas por expectativas financeiras. Uma queria ter a faculdade paga, outra, o apartamento quitado. Algumas viajaram de cidades pequenas da região até Balneário e nem tinham a passagem de volta, esperando passar mais de uma noite.Duas amigas haviam, além de desembolsado R$ 500 no convite, gastado mais de R$ 1.500 no look para atender ao dress code. Conforme os homens não apareciam, elas se sentaram isoladas em um banco, observando a movimentação e criticando, entre si, as outras participantes.O prejuízo, diziam, seria compensado com textões no Instagram expondo as promessas e realizações do evento.Às vezes um homem passava, media, quase fazia um raio-x, mas raramente parava para conversar. Essa, disse uma jovem experiente em encontros do tipo, é a graça para eles.Na rua, são como qualquer um. Seriam até ignorados por muitas daquelas mulheres. Ali, o dinheiro os transforma em artigo de luxo, lhes concede o poder.