-Imagem (1.1139597)O ex-jogador Lincoln de Freitas Neves, o Leão da Serra, 67 anos, vive hoje como brinca - traçando um paralelo com a antiga Confederação Brasileira de Futebol (hoje CBF) - na base do CBD: Come, Bebe e Dorme. Mas também viaja. Um dos maiores artilheiros e ídolo do futebol goiano, aposentou-se como servidor federal (Fundação Nacional de Saúde) e entre um bom livro e viagens segue fazendo o inverso da maioria dos jogadores de futebol, especialmente dos dias atuais: ocupa-se de preencher o tempo, também, com fazeres culturais, o que lhe dá um perfil diferenciado em função de uma formação diversa. Teve uma carreira no futebol interceptada por contusões que o eliminaram de jogar no São Paulo (chegou a assinar contrato) quando era um dos maiores goleadores do País, com chances de chegar à Seleção Brasileira. Fatalista, conforma-se com os fatos, pois acredita que tinha que ser assim. Mas não lhe escapam críticas ao futebol atual e suas particularidades, onde, como avalia, o dinheiro tem mais valor que a paixão pelo esporte. Dizendo que não ganhou dinheiro com o esporte, não tinha FGTS, direito de imagem nem 13º salário, salienta que vivia de um salário de dois mil cruzeiros no Goiás. Quando pensou que ia mudar de vida com o salário de 20 mil cruzeiros do São Paulo, o joelho mudou seu destino. Não pestaneja ao dizer-se “enojado do futebol em geral”. Política? Acha que o Brasil não tem jeito, na forma como andam as coisas. Foi em Palmas, onde morou e onde esteve recentemente, que voltou e expressar um pouco do que pensa e falar de tantas e boas lembranças. Lincoln, como você vê o futebol brasileiro na atualidade?Olha eu vou dizer uma coisa, tô enojado do futebol em geral, em todas as esferas e não destaco ninguém. Os meninos de hoje já começam a colocar tatuagem, brinco, não sei o quê e não jogam mais como a gente jogava antigamente. Nós jogávamos pelada, hoje tem escolinha disso e daquilo, toda estrutura é dada aos garotos, mas parece que não há aquela categoria. Você vê um menino, você vê Lucinho (ex-meio campista do Goiás), menino pobre, que chegou do interior, de Itabira (MG), o Lucinho se fosse nos dias de hoje não teria nem chances de jogar. Convivi com craques como Dirceu Lopes, Pelé, Tostão, Rivelino, então esses de hoje pra mim não tem um que chegue aos pés deles, os últimos grandes que vi foram o Zico e o Júnior.Como você vê a relação dinheiro e futebol hoje? Ganhou dinheiro com o futebol?Quando eu joguei no Goiás nunca ganhei cinco salários mínimos. Se você fosse converter pra hoje, vou dar um exemplo, fizeram uma projeção do que o Pelé ganharia hoje, assim como o Garrincha, o Pelé ganhou 30 mil reais e o Garrincha 10 mil reais. No meu caso, por exemplo, nunca tive 13°, nunca tive FGTS, nunca tive direito de imagem, nada. Nós nem sabíamos que tinha esse tal de FGTS. Poderia ter dado uma graninha até boa. Os clubes viviam basicamente das rendas dos jogos. E aquela renda era a conta, mas também não havia a logística que há hoje. Às vezes passa na televisão, nos vestiários você vê quantas chuteiras bonitas, cada jogador tem seis, sete pares de chuteiras, na nossa época você jogava o primeiro jogo em janeiro com aquela camisa e ia com ela até dezembro. Hoje jogador troca de camisa assim no intervalo do jogo. As coisas mudaram de lá pra cá.Você quer dizer que não existe mais paixão?Isso, não existe não. O menino de hoje já pensa em jogar aonde? É no Barcelona, é no Manchester. As crianças de hoje já estão praticamente se profissionalizando. Só pensam no que eles vão ganhar. A gente jogava mais sem compromisso com dinheiro. Pelo prazer mesmo. Quando joguei contra o Pelé pela primeira vez, gente!! Aquilo foi uma glória para mim. Zico, Rivelino, Piazza, Dirceu Lopes, Tostão, jogar contra esses caras para mim foi a glória. Até hoje o Luís Pereira fala bem de mim na televisão, Clodoaldo fala bem de mim. Meu nome ficou marcado naquela época por ter jogado com essas pessoas e ter sido respeitado por eles. Pra mim isso foi a maior glória. Você vê diferença nos fundamentos do futebol hoje com o da sua época?Vou dizer uma coisa. Outro dia, quando Valter estava no Goiás ele marcou um gol (contra o Dida no Grêmio) que nem eu, nem o Pelé, nenhum de nós ia marcar. O Dida rebateu a bola com o pé. Por que? Porque naquela época não aconteceria porque o goleiro pegaria a bola com a mão. Essa mudança foi boa para o futebol. Antigamente o goleiro podia ficar o dia inteiro pegando a bola com a mão. Outra coisa, quando eu dava um chapéu no adversário e ia para dentro do gol, eles voavam na minha garganta, grudavam na minha correntinha como o Cejas (goleiro do Santos) fez comigo lá no Olímpico (Estádio Olímpico em Goiânia). As regras mudaram e ficaram melhores para os atacantes. Se fosse hoje Pelé não faria mil gols, mas uns três mil gols. Hoje você vê os goleiros dos times jogam como se fossem líberos. Na época, o goleiro não precisava saber jogar bola. Era só com a mão. Tiro de meta quem batia era o zagueiro. Taticamente, acho que ficou muito truncado. Lembro que joguei no Goiás por seis anos só com um médio volante, o Matinha. O Clodoaldo era o médio volante do Santos. Hoje está muito mais dinâmico, era muito raro um zagueiro central ir à área para cabecear no gol adversário.Como vê o futebol mundial?O futebol mudou tanto. Às vezes você vê o Barcelona jogar. Mas também o Barcelona pega os melhores jogadores, todo mundo quer jogar no Barcelona. Todo mundo quer jogar na Europa porque lá a visibilidade é maior. Hoje você vê jogos na televisão todos os dias, segunda, terça... Porque que antigamente o Santos fazia amistosos e lotava os estádio? Porque a gente queria conhecer aqueles jogadores que só ouvia pelo rádio. Hoje não há mais amistosos, ninguém quer ver. Está uma coisa tão assim nivelada por baixo que você vê uma Islândia fazer o que fez na Eurocopa. Quais foram seus maiores marcadores ?Luís Pereira (Palmeiras), Figueroa (Internacional), Anchieta (Grêmio) e Perfumo (Cruzeiro). Eles eram jogadores muito bons tecnicamente. Difícil eram o Brito (Vasco-Botafogo) e Fontana (Vasco), madeiras de dar em doido. Teve um jogador muito técnico, um tal de Djalma Dias, pai do Djalminha...E o gol mais bonito e o mais importante que marcou?O mais bonito sem dúvida alguma foi contra o Vila Nova. Em frente às cabines de rádio no Estádio Olímpico (Goiânia). Eu vislumbrei alguém perto de mim, dei a bola por cima e saí, quando saí, dois zagueiros do Vila bateram cabeça e dali mesmo, antes da bola cair, eu chutei do meio de campo praticamente e ela foi na gaveta do Luisinho, goleiro do Vila. Agora o mais importante aí é que são elas. Por exemplo: o gol de inauguração do Estádio Serra Dourada teve uma importância histórica, marcou minha vida até hoje, fui o primeiro brasileiro a marcar no Serra Dourada. Às 16 horas e 26 minutos marquei o gol, do lado esquerdo das cabines, ao lado dos vestiários. Eu marquei também um gol em 1977 que o Léo Batista, da Globo, no último programa do ano, mostrou os dez gols mais bonitos daquele ano. O último gol que marquei na vida, contra o Goiânia, um 3 a 2. Outro gol foi no Belenenses, considerado o gol mais bonito da Europa naquela época.Você já foi expulso?Fui expulso uma única vez na vida, na decisão do Campeonato Goiano de 1972. Nós tínhamos ganho (sic) o primeiro jogo de 1 a 0 do Atlético com um gol meu; no segundo jogo, 1 a 0, gol meu também. O Boiadeiro (árbitro) no primeiro tempo me deu cartão amarelo porque marcou impedimento e não ouvi o apito e chutei a bola. No segundo tempo do mesmo jeitinho, não ouvi de novo, estava chovendo, ventando e a galera quando peguei na bola começou a gritar. Não ouvi o apito só vi de longe o cartão vermelho na mão dele. Lincoln, você teve uma carreira curta, parou cedo...Minha carreira foi superacidentada. Se não fossem as contusões, acho que eu teria ido para a Seleção. Tanto que uma contusão me tirou do São Paulo. Eu ganhava dois mil cruzeiros no Goiás e ia ganhar 20 mil no São Paulo, com chances de chegar à Seleção Brasileira. Em 1976 eu era cotado como um dos melhores centroavantes do Brasil. Tinha Roberto Dinamite - Serginho ainda não tinha aparecido -, Nunes, Ramon, Mirandinha, então eu fui contratado, os times todos do Brasil me queriam. Acertei o contrato numa mesa de hotel e fui me apresentar para o Poy (técnico do São Paulo) no dia seguinte. Fui bem recebido, Pedro Rocha, Chicão, Valdir Peres, aquele pessoal todo, Arlindo, timaço do São Paulo, que inclusive foi campeão em 1977. E por causa de uma radiografia, que acusou uma pequena artrose no joelho direito, o médico não recomendou minha contratação. E aí fiquei estigmatizado. Nem sempre foi pancada, foram torções, distensões, coisas que me tiravam de campo às vezes dois meses. Fizeram muita punção no meu joelho. Sou fatalista, se não deu certo, não deu. Você tem uma relação com Palmas, vem muito aqui?A primeira vez que vim a Palmas estava em Goiânia, tirei umas férias, peguei a moto, e me aventurei. Vim de moto, 800 e tantos quilômetros, em 1.996, por ai. Aqui era uma poeira danada, estava no início e adorei a Graciosa (praia do lado esquerdo do Rio Tocantins, antes do lago) e houve uma coisa muito interessante. Como nós sabemos, tem muitos goianos por aqui e muitos desportistas. Fui reconhecido aqui desde a primeira vez. Desde então comecei a gostar de Palmas. Eu trabalhei 25 anos na Fundação Nacional de Saúde (ex-Sucam), era agente de saúde pública, eu estava muito chateado, meu pai tinha morrido e aí pedi transferência para Palmas, peguei um carro, juntei minhas coisas e vim pra Palmas, gostei demais. Fiz contatos, fiz artigos para o Jornal do Tocantins, me lembro que foi na Copa do Mundo de 2002...Você representa um tipo diferente do jogador de futebol comum. Seria formação cultural?Olha, eu comecei a ler muito cedo. O primeiro foi de Shakespeare (escritor inglês William Shakespeare-1564-1616), Romeu e Julieta... Foi uma coisa. Inclusive quando vi um filme recentemente Cartas para Julieta, que coisa interessante! Eu sempre tive o hábito da leitura. Gosto de geografia, história. Tive, por causa de minha ida pra Lisboa, oportunidade de conhecer culturas muito diferentes. Qualquer manifestação artística me atrai, literatura, música, não o que a gente ouve nas rádios hoje. Comparo os caipiras de antigamente com os jogadores de antigamente e os sertanejos de hoje com os jogadores de hoje. Como é que um Wesley Safadão ganha R$ 800 mil num cachê? E o Silveira e Barrinha, por exemplo, não é não? Lincoln, como é sua vida hoje?Você lembra quando tinha CBD (Confederação Brasileira de Desporto)? Sou um CBD - como bebo e durmo. E viajo também. Viajo muito, tenho paixão por viagem, já rodei a Europa na boléia de caminhão, coisa melhor do mundo. Há dois anos fiz uma viagem de Recife a Lisboa que durou 11 dias e achei muito pouco tempo. Navio de 12 andares. E estou me preparando para fazer uma do Rio de Janeiro a Sidney, na Austrália, 40 dias no Pacífico. Acha que o Brasil tem jeito?Como o futebol, estou enojado de política. Cada dia se descobre uma coisa diferente. Às vezes eu vejo uma pessoa e ela entra lá e faz do mesmo jeito. Acho que não, mas como estão apurando, punindo, quem sabe, vamos ver...