É preciso a prática coletiva de certas virtudes para qualificarmos a nossa democracia

Ramis Tetu

Não faltam recursos ao Brasil, de nenhuma ordem. O nosso desenvolvimento tem como principal gargalo o nível de amadurecimento político e institucional dos diversos atores que compõem a nação, na direção de um estado democrático de direitos e deveres, onde o bem comum esteja acima dos jogos de interesses e poder, mesmo que legítimos. Para pararmos de sofrer e avançarmos, é preciso que população, empresas, instituições, grupos diversos e poderes constituídos – todos enfim, exerçam as suas responsabilidades (no duplo sentido de dever e habilidade para dar respostas), não só demandem direitos; que os políticos se transformem antes em (bons) gestores públicos e arquitetos dos diálogos e consensos, superando a lógica eleitoral e de poder; que os técnicos empreendam e tragam soluções eficazes para os problemas do cotidiano das atividades e da população, não ajam apenas como burocratas ou corpos estatais. Que tenhamos uma governança maior do que governos, integrando todos os envolvidos em uma certa atividade, causa ou região. Isto nos exige algumas virtudes coletivas: humildade, respeito pelo outro, curiosidade intelectual, desapego ao poder e brasilidade. Para começar.

Interação para a integração

Ramis Tetu

Quando há uma interação entre o melhor da participação popular e cidadã, das inúmeras áreas técnicas e da boa política, colhemos bem mais resultados com: a diversidade de olhares e verdades; a observação e o levantamento situacional de problemas, soluções e detalhes; os princípios técnicos mais adequados de distintas áreas; a pactuação entre os envolvidos.    

Transversalidade

Ramis Tetu

O mesmo vale para as distintas áreas técnicas em seus grandes grupos: Engenharias; Ciências Agrárias, Ambientais e da Saúde; Administração e Economia, Tecnologia da Informação, Comunicação, etc. E suas especialidades, hoje mais de 8.000 áreas de conhecimento. Pois a visão de mundo de uma delas pode ser totalmente oposta à de outra, sendo ambas verdadeiras.          

Interação entre leis e princípios técnicos

Ramis Tetu

Precisamos chegar a um equilíbrio entre as leis feitas por legisladores leigos e os princípios técnicos das muitas áreas de conhecimento. A técnica aplicada nas leis não pode ser apenas a do Direito, e este nunca pode ser (ou se sentir) superior às demais áreas técnicas.

Desequilíbrio e atraso

Ramis Tetu

O atraso acontece ou permanece nos abusos de poder deste trinômio política, técnica e popular. Quando a autoridade se excede em autoritarismo ou, ao contrário, na falta de seu exercício e na imposição de limites; a técnica, em tecnocracia mecânica e insensível; a sensibilidade social em populismo politico (ou técnico!); a busca de direitos em egoísmo e esquecimento dos deveres; e quando a opinião pública ou a “vontade” política atropela os (bons) princípios técnicos.         

Abusos vários

Ramis Tetu

Estão falando que o combate à corrupção no Brasil se excedeu, há sérias controvérsias. Mas, no embalo, não seria abuso de autoridade: funcionários públicos destratarem o contribuinte ou cidadão? Desídia? Apreensão de veículos por falta de pagamento de IPVA? Privilégios? Decisões de cunho técnico substituídas pelo achismo leigo (ou interessado) de gestores políticos? Aparelhamento político com fins não republicanos? Ações eleitoreiras e imediatistas substituindo políticas públicas estruturantes e de maior prazo? Legislar em benefício próprio? E corrupção, não seria o pior dos abusos, além de traição?

Vale para todos

Ramis Tetu

O combate ao abuso de autoridade tem de valer para todos, não só para um grupo. Em especial, pelas razões certas, como um sistema de contrapesos e limites, não o contrário, um instrumento de manutenção de abusos e privilégios.         

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