No mesmo sábado em que a diretora de vigilância em saúde de Palmas Marta Malheiros, admitia de forma inédita para a TV Anhanguera que entre 2 e 3 mil pessoas com sintomas de Covid-19 não passaram pela testagem desde o começo da pandemia, a plataforma Lagom Data, especialista em análise de dados, apontava que a capital tocantinense tem 7 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) para cada uma pelo novo coronavírus de janeiro a maio. 
 
A plataforma posiciona Palmas em sexto lugar entre todas as capitais, logo acima de Goiânia (5.87) e Brasília (3.35), por exemplo. A primeira do levantamento é Campo Grande (11.6 mortes por SRAG por uma de Covid-19), seguida de Curitiba (9.62), Belo Horizonte (9.32), Cuiabá (9) e Porto Alegre (8.81). O levantamento do Lagom Data chamou a atenção do biólogo Atila Iamarino, que o compartilhou nas redes e destacou a coincidência do crescimento das mortes por SRAG onde não há testagem. 
 
"Pra quem é de estados com poucos casos de Covid-19, como MG, PR, MS e outros nessa lista, cuidado com essa síndrome respiratória aguda que também tá matando”, escreveu o pesquisador, que é formado em microbiologia e doutor em virologia. “Ela cresceu como a Covid, mata como a Covid, é infecciosa como a Covid. Mas só é mais comum onde não se testa Covid-19", completou Iamarino, em sua conta no Twitter.
Até o sábado, Palmas apresentava 6.832 notificações para síndrome gripal, com 3.209 descartados e 756 confirmados – com 8 mortes -, restando uma diferença de 2.867 notificações, praticamente bate com a estimativa de pessoas não testadas admitidas pela gestão.
 
"Quanto começou o início dos casos a gente não tinha testes para todo mundo. A indicação dos testes era somente para idosos, com comorbidades. Então a gente tem em torno de duas a três mil pessoas que não foram testadas no início e não faz sentido agora eu testar depois de um mês dos sintomas. Vai ser só um dado estatístico e não é para isso que a gente faz o teste", disse à TV Anhanguera, Marta Malheiros. 
 
Dados acumulados
 
 
Marcelo Soares, jornalista responsável pelo Lagom Data, explica ter usado dados do Ministério da Saúde (MS) com mortes por síndrome respiratórias não especificadas (como influenza, pneumonia) até o dia 18 de maio. Informado sobre a admissão pela gestão, da não testagem de 3 mil pessoas em Palmas, Soares avalia que pode indicar tanto uma estratégia para a gestão não ser responsabilizada e, por outro lado, que houve prioridade para testagem de quem estava muito grave porque não havia muitos testes. 
 
Ele destaca ter chamado sua atenção a lentidão no crescimento dos dados sobre a Covid-19 no estado. “O Tocantins mesmo em comparação com outros estados próximos estava demorando para crescer os dados e espalhar para as cidades e foi o último estado a confirmar uma morte”.
 
Subnotificação
Conselheiro federal de Medicina Estevam Rivello Alves avalia que o levantamento do Lagom Data representa subnotificação de casos de Covid-19. Nos primeiros meses da pandemia, entre janeiro e fevereiro, segundo ele, se deu por falta de testes. “O indivíduo chegou na unidade, nós não tínhamos teste, ele foi notificado com SRAG, ele pode ter recuperado, ele pode ter morrido, mas nós não testamos essa pessoa de forma adequada”, avalia. 
 
Nos meses mais recentes, na avaliação de Alves, a subnotificação pode ter sido em virtude de o profissional na unidade de saúde não ter submetido o paciente à testagem ou por se sido feita uma testagem rápida, fora do prazo epidemiológico exigido, e ter dado falso negativo para Covid-19 contado com síndrome respiratória. 
“A gente não deve acreditar nessa conta [de mortes por SRAG] e acreditarmos que seja coronavírus aí, está afirmado Palmas inteira está sendo subnotificada. E isso é um dado concreto que comprova que Palmas está subnotificada”.
 
Ele lembra que no país, ao longo do tempo, estas doenças respiratórias, com influenza, pneumonia e síndromes respiratórias, tinham um padrão de aparecimento que só mudou com a Covid-19. “Todo ano tinha um planejamento, vai aparecer o ano que vem tantos casos, e esse padrão veio se repetindo, esse ano estoura o número de casos, estoura o número de casos em detrimento do quê, do coronavírus”.
 
Contra reabertura
O conselheiro também reforça a posição de não ser o momento de reabertura do comércio. “Não é o momento de flexibilizarmos e abrirmos o comércio estimularmos a circulação de pessoas liberarmos setores da nossa economia porque nenhum local do mundo isso aconteceu em pico de crescimento da doença”, opina Estevam Rivello Alves.
Para Alves, o mais correto ao se trabalhar com os dados disponíveis e o que se sabe da doença é “permanecer em casa, restringir movimentos das pessoas, não liberar atividades de segmentos da sociedade e da economia e não ceder às pressões desses setores da economia em detrimento da saúde”. 
 
Ele reafirma a dependência de 92% dos tocantinenses do serviço público e alerta para o risco de colapso. “A nossa saúde é dependente do serviço público do SUS em 92% da população tocantinense. Então, se 92% da nossa população depende do serviço público, nós não temos estrutura para poder atender a toda a população da nossa gente no período atual. E se estourar o número de casos, subir o número de casos, aí sim isso vai ficar evidente o que vai ser pior vai colapsar nosso serviço, vai crescer o número de óbitos e os nossos problemas só vão aumentar”.