Os dois últimos km da Rodovia TO-391 antes de Grota do Meio, distrito de São Miguel do Tocantins, no extremo Norte do Tocantins, têm a margem esquerda repleta de uma floresta de Teca, em uma área que corresponde a quase 2 mil campos de futebol.  A extensão começa próximo ao bar Conexão Imbiral, à margem da rodovia, assim que se deixa a cidade de São Miguel, e vai até o posto fiscal Bela Vista. Nesse trecho, a única exceção de área sem Teca, tem cerca de 600 m de perímetro. É o velho cemitério existente a 100 metros do portão de entrada da fazenda, que tem nome de  Jussara. 
 
A Teca é reconhecida mundialmente como madeira nobre usada em móveis de alto padrão e na indústria naval. A plantação da Fazenda Jussara, uma gleba de terra de 2.098,1003 hectares, pertence à empresa Nobleinvest Atividades Rurais. 
 
Desde maio deste ano esse patrimônio verde virou alvo de uma complicada disputa judicial. O embate revela um imbricado negócio entre grandes empresários espanhóis, da família Sanchís Perales, originária de Madri, e dois filhos do antigo proprietário das terras, João Batista de Castro Neto. 

João Batista Neto é um juiz tocantinense aposentado, ex-procurador do município de Araguaína e ex-procurador-geral do Estado do Tocantins, que mora em Goiânia (GO). Após sua carreira no Tocantins, o juiz chegou a ser acusado pelo Ministério Público do Maranhão de participar da trama que assassinou o padre Josimo Morais Tavares, no dia 10 de maio de 1986.
 
Segundo a denúncia, ele e outros dois latifundiários se organizaram e planejaram com outros réus a morte do padre, que atuava como coordenador da Pastoral da Terra na região do Tocantins e Maranhão. O caso, porém, prescreveu. E em 2006, o juiz vendeu a fazenda Jussara. Agora, dois dos filhos do juiz entraram com uma ação para anular o negócio. 

A partir dos documentos que envolvem essa disputa judicial, uma pesquisa sobre os espanhóis da família Sanchís Perales revela que há dois empresários com sentença condenatória à prisão, pela Justiça da Espanha, por crimes como falsificação de documentos mercantis, contra o Tesouro espanhol, e lavagem de dinheiro de contratos públicos naquele país. 
 
Segundo a sentença da Justiça espanhola, um dos mecanismos de lavagem de dinheiro do grupo era investimentos em empresas na América do Sul, a partir do uso de uma conta bancária de Ángel Sanchís Perales, de onde saíram também U$ 72 mil dólares transferidos para a conta do juiz João Batista Neto, na transação pela Fazenda Jussara.

A disputa tocantinense opõe herdeiros e empresários espanhóis

A disputa pela Fazenda Jussara na Justiça Tocantinense tem de um lado a Nobleinvest,  fundada no Rio de Janeiro a 23 de junho de 2006. A empresa tem entre seus sócios os espanhóis Rafael José Sanchís Herrero, 57 anos, seu irmão Ángel Rafael Sanchís Herrero, 58 anos, e a irmã deles, a empresária Maria Del Carmen Sanchís Herrero, 56 anos. 

Os três são filhos de Ángel Sanchís Perales, 81 anos, um megaempresário espanhol que também atuou como ex-tesoureiro da Aliança Popular (atual Partido Popular da Espanha) entre 1982 e 1987. "Don Ángel", como é conhecido, é figura central na história da sociedade que controla a Fazenda Jussara. 

Do lado dos herdeiros do antigo dono estão a professora Cláudia de Lima de Castro, 53 anos, moradora de Araguaína, norte do Tocantins, e o irmão dela, João Batista de Castro Filho, promotor do Ministério Público do Piauí, na capital Teresina.  
 
Os dois entraram com uma ação de nulidade do negócio em maio deste ano, num roteiro de suposta dilapidação do patrimônio familiar.  Eles acreditavam que o imóvel estava arrendado. Então descobriram que havia sido alienado há 14 anos. 

Os irmãos alegam que a fazenda era herança da mãe, Teresinha Lima de Castro, falecida em 15 de maio de 1993. Segundo eles, o pai, com quem não mantêm relacionamento há anos, vendeu a terra sem a existência do inventário e sem anuência ou qualquer consentimento dos filhos. 
 
Cláudia Castro e João Batista Filho afirmam existir "expedientes fraudulentos" usados para concretizar a venda da fazenda pelo valor de R$ 4.660.155,00 (sem correção).  Contestado agora, o negócio entre Neto e os Sanchís é datado de dia 26 de julho de 2006. Embora o então juiz residisse, à época, na Rua Pires do Rio, no bairro Senador, em Araguaína, norte do Tocantins, a escritura pública de compra e venda tem registro no dia 26 de julho de 2006, no Cartório de Registro de Imóveis do município de Palmeiras do Tocantins, a 150 km de São Miguel.  

O documento anotado no Livro nº 013 de escrituras aponta o negócio entre Neto e o industrial baiano identificado como Cândido Gonçalves Netto, à época, procurador da Nobleinvest.  Os filhos sustentam que essa escritura pública de compra e venda se fundamentaria em informações falsas. 
 
Um dos documentos supostamente falso seria a autorização judicial de um processo de inventário da mãe, existente na Comarca de Filadélfia. Os filhos anexaram uma certidão do Judiciário do Tocantins atestando a inexistência de qualquer processo de inventário da mãe, que vivia em Araguaína até falecer. 
 
Para os filhos, não houve inventário e a citação do suposto processo buscou dar legitimidade ao negócio, para o qual, afirmam, nenhum deles outorgou quaisquer poderes ao pai.  Os dois indicam no processo que os atos podem ter sido facilitados pela relação de amizade íntima que o pai deles, um importante ex-magistrado, mantinha com o então tabelião de Palmeiras e com o juiz de Filadélfia.
 
Os dois filhos afirmam que não mantiveram proximidade com o pai e nunca foram consultados nem consentiram com a venda da terra. No pedido à Justiça, querem a nulidade do negócio e a declaração de inexistência de relação jurídica para que a fazenda retorne para a propriedade deles. 

O juiz aposentado afirma, em mensagem enviada ao JTo, não ter "conhecimento algum desta ação pois não foi citado."

A Nobleinvest afirma ter adquirido a Fazenda Jussara de boa fé, mediante escritura pública de compra e venda. "Na ocasião o vendedor que era meeiro e inventariante apresentou Alvará Judicial da lavra de juiz de direito da Justiça Estadual do Tocantins autorizando João Batista de Castro Neto a vender o imóvel como de fato ocorreu", afirma a defesa da empresa.

Para conseguir registrar a escritura na matricula do imóvel a Nobleinvest alega ter ajuizado uma ação contra João Batista e a Justiça. Nesta ação, consultada pelo JTo, dos R$ 4,6 milhões que ofereceu pela terra, a empresa disse que R$ 860,1 mil eram pela terra nua e R$ 3,8 milhões pelas benfeitorias. A entrada era de R$ 2.660.155,00 e outros R$ 2 milhões parcelou mediante condições que o juiz deveria cumprir: o georreferenciamento do imóvel, o cadastro (CCIR) atualizado do Incra e o cancelamento das penhoras sobre o imóvel. 

Alegando que o juiz não cumpria o acordo e faltavam apenas R$ 316.020,00 para quitação do negócio, a empresa entrou com a ação contra o juiz pelo não cumprimento do contrato e pela penhora da fazenda por determinação judicial de Goiás. Uma delas, da comarca de Anápolis, era no valor de R$ 124.982,33. Também pesavam contra a fazenda outras quatros penhoras de R$ 24.764,00, R$ 20 mil, R$ 119.124,00 e R$ 25.251,46 e mais 9 ações judiciais contra o antigo dono. 

Quando a Justiça deu por quitada a compra e venda , determinou o registro da escritura na matrícula junto ao registro de imóveis.  "Se houve alguma irregularidade no processo que autorizou a emissão do Alvará, não é de conhecimento da Nobleinvest que não participou deste processo. A Nobleinvest acredita na Justiça Estadual do Tocantins e na seriedade de suas decisões", diz a defesa.

O caso Gürtel e a condenação de Ángel Sanchis, pai, e Ángel Herrero, filho

Os empresários espanhóis Ángel Sanchís Perales, o pai, e Ángel Sanchís Herrero, o filho, fazem parte dos 29 condenados pela Segunda Seção da Audiência Nacional da Espanha, em Sentença de nº 20, prolatada no dia 17 de maio de 2018. Integram a lista dos 37 acusados – seis foram absolvidos - pelo Ministério Fiscal espanhol, o equivalente ao Ministério Público Federal no Brasil, na 1ª fase do escândalo de corrupção de verbas públicas conhecido como Caso Gürtel. 
 
O Gürtel é uma das investigações de desvio de dinheiro público mais famosas da Espanha. O esquema teve como cérebro o empresário Francisco Correa, condenado a 51 anos e 11 meses de prisão, na mesma sentença. O sobrenome do empresário convertido para o alemão é Gürtel, e batizou a ação.  

A trama do caso, segundo o processo da Justiça espanhola, começou a ser investigada em 2009. Envolve uma sofisticada rede de corrupção com empresários e políticos, em um esquema de desvios em contratos públicos com o pagamento de propina - as comissões-, para membros e dirigentes partidários do Partido Popular (PP), do qual Ángel Sanchís Perales foi tesoureiro. A 1ª fase, de contratos públicos firmados entre 1999 a 2005, estima danos de € 40 milhões de euros aos cofres públicos. A fase seguinte ainda tramita por lá.
 
Com apenas um voto em separado - de um juiz que não viu provas da lavagem de dinheiro imputada aos Sanchís-, a Justiça espanhola considerou que Ángel Sanchís e Ángel Herrero, participaram do esquema de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro de Luís Bárcenas, que era ex-gerente e ex-tesoureiro do PP de 1993 a 2009. Bárcenas pegou pena de 33 anos e 4 meses de prisão e multa de € 44 milhões de euros (R$ 269,7 milhões). 
 
Uma das formas de lavar dinheiro, segundo a sentença espanhola, era a simulação de empréstimos para investimento em empresas na América do Sul. Um deles tem o valor de € 3 milhões de euros, transferidos para Ángel Sanchís Perales entre março e maio de 2009.  
 
Esse dinheiro, segundo a sentença, saiu da conta de Luís Bárcenas no Dresdner Bank/Suíça, que tinha como titular uma fundação panamenha para uma a conta de Angel Sanchís Perales no HSBC/Nova York/EUA, e de lá para a empresa Brixco SA, sediada no Uruguai. Depois, em nova movimentação, o dinheiro sai da Brixco para empresas ligadas a Angel Sanchís Perales. 
 
Uma parte do valor sofreu transferência para a empresa argentina La Moraleja AS, na Argentina, da Família Sanchís. Outra parte vai para a empresa uruguaia Rumagol SA, de Ángel pai e Iván Yáñez Velasco. Depois, descreve a sentença espanhola, o dinheiro teria sido devolvido para contas de Bárcenas e da família e das empresas dele, em diversas transferências bancárias. 

Segundo a documentação analisada pelo JTO, a primeira parcela que pagou a Fazenda Jussara também saiu de uma conta HSBC/New York/EUA, em nome de Carney Invest & Trade Inc., sediada à época na rua Caminho Novo, em Alcobendas, Madri. O débito de U$ 72.000,00 dólares americanos saiu da conta do HBSC em New York para a conta de João Batista Neto no Banco do Brasil em Araguaína. 

A defesa dos Sanchís, habilitada na Espanha e nos Estados Unidos, afirma desconhecer quaisquer pagamentos que a Carney Invest & Trade Inc possa ter feito. Segundo a defesa, a Carney não é parte em nenhum dos processos penais citados na matéria. A defesa desconhece "processo contra Carney ou qualquer coisa que seja ilegal em qualquer de suas atividades."

Segundo a defesa, a Carney não tem nada a ver com o empréstimo citado. "O empréstimo de 3 milhões de euros entrou em Nova York e foi investigado nos Estados Unidos sem que nada de ilegal aparecesse. Não houve nenhuma acusação nos Estados Unidos para qualquer operação da família Sanchis ou de suas empresas nos Estados Unidos".

A Nobleinvest não aparece citada como beneficiada pelos desvios do PP em nenhuma página dessa sentença de 2018, da Segunda Seção da Audiência Nacional Espanhola - formada pelos juízes Ángel Hurtado Adrián (presidente) e Julio de Diego López e José Ricardo de Prada Solaesa. 
 
Há apenas uma menção a uma empresa de “maderas nobles” no Brasil” durante o interrogatório de Ángel Sanchís, ainda na instrução processual. Tudo indica se tratar de uma referência a outra empresa que o grupo mantém no Brasil, a Madeiras Nobres, sediada em Imperatriz (MA).
 
No depoimento contido no processo espanhol, Ángel Sanchís cita o endosso de Bárcenas, de € 1 milhão de euros, em transação que contou com outra empresa de Sanchís, a TQM Capital. Segundo a justiça espanhola, o empresário justificou o empréstimo por necessitar do dinheiro para a empresa no Brasil, porque não havia conseguido crédito nos bancos brasileiros. 

 

Quem relaciona a Nobleinvest ao escândalo Gürtel é a imprensa latino e espanhola. O Sudestada, um dos mais antigos sites do Uruguai de jornalismo investigativo, fez uma ampla investigação do caso, em 2014, patrocinada pelo Instituto Prensa y Sociedad (IPYS). O site aponta que a Justiça espanhola considera que a Nobleinvest também foi usada por Bárcenas para lavar dinheiro desviado da Espanha (confira a reportagem, em espanhol).  
 
Segundo o site, a Nobleinvest fazia parte do grupo Madeira Nobres, dona da Fazenda La Moraleja. Na Espanha, La Moraleja é o nome de um rico bairro em Alcobendas, na cidade de Madri, onde fica o endereço dos Sanchís. Na Argentina, segundo o Sudestada, é um empreendimento agropecuário na Argentina também da família Sanchís e dos argentinos Martínez Autin y Martín Menéndez, filhos do ex-ditador argentino Mario Benjamín Menéndez.  
 
O espanhol Voz Pópuli afirma, em matéria de 2018, que além da La Moraleja, uma porção de 30 mil hectares na Argentina, as investigações da Audiência Nacional sobre as atividades de Bárcenas, para ocultação de dinheiro, se dirigiam para a região de São Miguel, Itaguatins e Maurilândia, onde Sanchís detinha três fazendas que soma 3.500 hectares de terra.

A defesa dos empresários nos EUA e Espanha afirma que os Sanchís foram absolvidos na Argentina.

 

Na sentença espanhola, o pedido do Ministério Fiscal de condenação por lavagem de dinheiro e falsificação de documento mercantil para Ángel Sanchís e Ángel Herrero era de 6 anos de prisão e € 9 milhões de euros de multa cada um. A pena final fixada foi de 1 ano de prisão e multa de € 6 milhões de euros (cerca de R$ 36,7 milhões). Desse valor, € 3 milhões de euros (R$ 18, 3 milhões) foram bloqueados pela sentença condenatória, que tem 1.687 páginas.  
 
O próprio PP aparece condenado na sentença pagar € 245 mil euros de multas. A Justiça espanhola entendeu que o partido lucrou com o esquema. A dura sentença do Caso Gürtel derrubou no mês seguinte o premiê espanhol Mariano Rajoy, do PP, após sete anos no poder.
 
Rajoy se tornou o primeiro chefe de governo espanhol a perder o cargo após uma moção de censura, um processo do parlamento da Espanha, que, aprovado, destitui o governo do cargo, por falta de condição de governar o país. Segundo a imprensa internacional, eram precisos 176 votos (metade mais 1) dos 350 parlamentares, mas 180 deputados votaram pela saída do premiê e 169 votaram contra. 

A defesa do grupo nos EUA e Espanha ressalta que o presidente do tribunal espanhol os absolveu, como mencionado nesta matéria, o que indica que a sentença não foi unânime e, por isso cabia recurso. A defesa defende que por estar em grau de recurso não há condenação final dos Sanchís. 


A história por trás do controle da Fazenda Jussara

Dados cadastrais das empresas envolvidas com a Nobleinvest Atividades Rurais mostram o uso de pessoas sem relação com os negócios do grupo espanhol, conhecidas como “laranjas”, para criar e movimentar as empresas que controlam a milionária Fazenda Jussara. A empresa precisava de sócios brasileiros para serem fundadas.
 
A Nobleinvest Atividades Rurais nasce no dia 23 de junho de 2006, no 6º da Avenida Rio Branco, com dois sócios fundadores, uma estudante de 24 anos que seria moradora de São Miguel, e a empresa uruguaia Ebanar SA.  O JTo vai identificar a estudante pelas iniciais A.P.C.A., porque ela denunciou o próprio pai ao Ministério Público, pelo uso de seu nome no negócio (veja adiante) por meio de documentos que reputa serem falsos.
 
Ambos tinham como procurador um advogado identificado como Roberto Villanova, não localizado pela reportagem. O JTO, porém, só obteve procuração para esse fim, em nome da Ebanar S.A. na Junta Comercial do Rio de Janeiro. Não encontrou procuração da estudante, A. P. C. A. para ninguém abrir e movimentar uma empresa em seu nome.  Do capital social de R$ 10 milhões estipulado na fundação da Nobleinvest, R$ 1 pertencia à A.P.C.A. Para a uruguaia Ebanar, os R$ 9.999.999,00.
 
O Artigo 7º do estatuto fundador previa a administração da sociedade por tempo indeterminado ou até os sócios o destituírem da função estatutária de Gerente Geral, a cargo de Erides Campos Antunes, engenheiro florestal, que morava na Fazenda Jussara. 

Cabia a ele administrar e gerir os negócios sociais da empresa. Erides é pai da estudante, que se formaria depois em arquitetura em Goiânia, onde ela nasceu a 6 de fevereiro de 1982, e onde ainda mora. 

Segundo a defesa de A.P.C.A, ela jamais morou na Fazenda Jussara ou mesmo no Tocantins e jamais soube, até ser contatada neste ano, da existência da empresa.  "Esta empresa foi constituída sem o consentimento e sem sequer o conhecimento dela. Ela veio tomar conhecimento dessa empresa esse ano. Ela jamais soube que teve essa empresa, não assinou documento [de procuração]", afirma. 

Entretanto, ao ser questionada pela reportagem, a defesa afirmou que ao buscar a documentação encontrou, sim, uma procuração assinada por ela passando poderes para o advogado Villanova. "Infelizmente ela tem de responder por uma coisa que ela não tem a menor responsabilidade. Provavelmente foi o pai dela com o Alejandro [Javier Picasso, administrador da Fazenda] que fizeram essa procuração em nome dela sem autorização dela. Ela entrou e saiu de uma empresa sem conhecimento".

A defesa da arquiteta afirma que ainda vai periciar a procuração para descobrir se o documento é autêntico. Embora o pai dela tenha usado o nome de A.P.C.A e de uma irmã para constituir outras empresas ambientais, a defesa ressalva que a arquiteta pode ter assinado a procuração em meio a outros documentos de utras empresa.  

"Ela jamais se beneficiou de nada em relação a essa empresa até porque, até pouco tempo ela não tinha nem conhecimento que ela havia sido dona dessa empresa", diz a defesa.

A.P.C.A figurou como dona por menos de dois anos. Dezoito meses depois, em dezembro de 2007, na 2ª alteração contratual, a Nobleinvest admitiu como sócio cotista o advogado maranhense Antonio Edivaldo Santos Aguiar, 51 anos, na qualidade de cessionário da estudante, que lhe transferiu o R$ 1 que detinha no capital social.

 

Nessa mesma alteração, a 4ª cláusula incluiu o ex-tesoureiro do PP Ángel Sanchís Perales, com cotas de R$ 277 mil. Ele também representou a esposa Maria Del Carmen Herrero Gordo, 80 anos, admitida na mesma cláusula, com cotas de R$ 134.600,00.
 
Também se deu a inclusão da prole do casal, a empresária Maria Del Carmen Sanchis Herrero, 56 anos, com R$ 277.000,00; o empresário Rafael José Sanchis Herrero, 57 anos, com R$ 253.600,00 e a empresa Inmobiliaria Gordo SA. Fundada em Madri no dia 14 de fevereiro de 1977, a empresa entrou com R$ 2.888.950,00 de capital. 
 
A Inmobiliaria Gordo tinha como delegada Carmen Herrero e outorgou poderes para Antonio Aguiar representa-la no país, incluindo o de constituir uma nova sociedade. A tradução juramentada da procuração data de 30 de julho de 2008, em São Luís. Com a mudança, a Ebanar continuou a deter R$ 9,9 milhões, a Gordo R$ 2,8 milhões, Ángel e Maria Del Carmen, R$ 277 mil, Rafael Herrero, R$ 253,6 mil, Maria Del Carmen Gordo R$ 134,6 mil e Antonio Aguiar, R$ 1, totalizando R$ 13,8 milhões.
 
Em 2010, em nova alteração. O empresário e terceiro filho do ex-tesoureiro, Ángel Rafael Sanchís Herrero, 58 anos, é admitido como sócio, somando mais R$ 256.594,00 de capital social. A mãe dele é retirada e passa para o marido os R$134.690,00 de suas cotas. 
 
Nessa mudança de 2010, o capital subiu para R$ 30 milhões, com o aumento de R$ 15.912.256,00 divididos para a Ebanar (R$ 11.138.580,00) e Inmobiliaria Gordo (R$ 4.773.676,00). Segundo a alteração, desse R$ 30 milhões, o montante de R$ 22.257.570,00 integralizados naquela data e mais R$ 7.742.430,00 em 24 meses. 
 
Com a alteração, a Ebanar alcançou R$ 21,1 milhões do capital e a Inmobiliaria Gordo com R$ 7,6 milhões. O ex-tesoureiro Ángel Sanchís com R$ 411,6 mil; Del Carmen, R$ 277 mil; Ángel Herrero, R$ 256,5 mil; Rafael Herrero, R$ 253,6 mil e Antônio Aguiar, R$ 1. Na mesma mudança, os sócios nomearam outro administrador, o argentino Alejando Javier Picasso, 54 anos.
 
Dois anos depois, em junho de 2012, a sócia Del Carmen recebe R$ 188,4 mil da Ebanar e R$ 1 milhão da Inmobiliaria Gordo, que também cede R$ 1,2 milhão para Ángel Herrero e Rafael Herrero. A mudança deixou a Ebanar com R$ 20, 9 milhões do capital total, a Gordo com R$ 4,1 milhões. Ángel Sanchís se manteve com R$ 411, 6 mil e os três filhos dele, Del Carmen, Ángel Herrero e Rafael Herrero, com R$ 1,5 milhão cada. O advogado Aguiar permanece com R$ 1. 
 
Oito meses depois, em fevereiro de 2013, Ángel Sanchís deixa a sociedade e doa suas cotas para os filhos, em partes iguais, na 5ª alteração contratual da Nobleinvest, que também elevou para R$ 40 milhões o capital total da sociedade. A Ebanar subscreveu mais R$ 8,2 milhões, a Gordo mais R$ 1,3 milhão e os filhos de Ángel R$ 112,8 mil cada.  
 
A divisão de cotas passou a ser de R$ 29, 2 milhões para a Ebanar; de R$ 5,5 milhões para a Gordo, de R$ 1,7 milhão para cada um dos filhos e o R$ 1 do advogado Aguiar e durou até outubro de 2013, quando houve novas transferências de cotas da Ebanar para os três filhos de Ángel Sanchís, no valor de R$ 850 mil. Com isso, a Ebanar passou a ter R$ 26,6 milhões, a Gordo R$ 5,5 milhões, Aguiar R$ 1 e cada um dos filhos do empresário, R$ 2, 6 milhões.  Essa divisão de cotas permanece até os dias atuais, desde que Aguiar saiu da sociedade no final de 2016 na 7ª alteração, quando cedeu seu R$ 1 para a filha de Ángel, Maria Del Carmen. 

 

Essa mesma alteração mostra que outra empresa do grupo, a Madeiras Nobres, pagou uma conta da Ebanar com a Nobleinvest no valor de R$ 1,5 milhão.  O valor é o montante integralizado pela Ebanar em 31 de dezembro de 2016 e foi transferido da conta empréstimo-contrato de mútuo da Madeiras Nobres para a conta de capital, em função da Ebanar “ter sido a fornecedora do capital à empresa Madeiras Nobres Reflorestamento LTDA”. 
 
Segundo o registro contábil na Jucetins, isso se deu na forma de integralização de capital e a Madeira Nobres emprestou o valor para a Nobleinvest. A Ebanar autorizou a extinção da obrigação da Nobleinvest com a Madeiras Nobres. 
 
A mais poderosa sócia da Nobleinvest, a Ebanar, nasceu em Montevideo, Uruguaia, no dia 8 de novembro de 2005. Tem prazo de 100 anos. Cinco meses depois, a empresa elegeria como presidente a filha de Sanchís pai, Maria del Carmen Sanchís Herrero e vice-presidente, a uruguaia Carlotta Jorge. Também elegeria Ángel Sanchís, o pai, e Rafael José Sanchís Herrero como diretores. Ángel ficaria nessa função até 2011.

A Ebanar também é a maior sócia e administradora da Madeiras Nobres Reflorestamento Ltda, criada dia 8 de novembro de 2006. A outra sócia é E.C.P.M, dona de uma empresa locadora de máquinas e equipamentos de construção em Goianira (GO). Fundada em 2013, a locadora tem capital social de R$ 60 mil. O capital social atual da Madeira Nobres é de R$ 10 milhões. 

A defesa da Nobleinvest no Brasil, sediada no Maranhão, afirma que as pessoas de A.P.C.A. e E.C.P.M. "foram trazidas à sociedade pelo engenheiro responsável pela execução do projeto de formação da floresta, Erides Antunes", pai da primeira sócia e colega de trabalho da outra. 

"Erides apresentou procuração das duas representado-as a participar na sociedade", diz a defesa da Nobleinvest, ao ressaltar que A.P.C.A ingressou  na constituição da Nobleinvest e saiu em dezembro de 2007.  Já sobre a participação de E.C.P.M na Madeiras Nobres, a defesa afirma que esta empresa "não operou e não possui patrimônio, sendo cancelada seu registro na Junta Comercial".

A defesa brasileira do grupo diz ainda que a empresa Madeiras Nobre "não operou e seu registro foi cancelado, a sociedade de fato se desfez". Segundo a defesa, E. C. foi representada por Erides Antunes que apresentou procuração para a mesma ingressar na sociedade.

Procurada pela reportagem, essa sócia disse que iria discutir com seu jurídico se iria manifestar na reportagem, mas não respondeu às perguntas formuladas pela reportagem, mesmo após insistência.  Eis as perguntas enviadas para ela:
- Você sabia que seu nome foi usado para abrir as empresas Madeiras Nobres e Nobleinvest no Brasil, e também para a empresa uruguaia Ebanar?
- Você chegou a manter contato, conhece ou tem alguma relação com algum dos donos da empresa? 
- Você chegou a manter contato, conhece ou chegou a trabalhar com ALEJANDRO JAVIER PICASSO, administrador da Nobleinvest? 
- O que fazia profissionalmente e onde morava na época em que participou dessas empresas?
- Você assinou alguma procuração para algum advogado atuar em seu nome? Se sim, lembra quem é?
- Você chegou a receber algum pagamento por ter emprestado seu nome para o negócio?
- Você mora em Goianira, onde tem seus negócios. Você já morou na Fazenda Jussara, no Tocantins? Ou em Imperatriz, ou outra cidade do Tocantins? Exerceu alguma atividade para alguma dessas empresas: Nobleinvest, Ebanar e Madeiras Nobres?

Já Erides disse que poderia se manifestar se houvesse um compromisso da reportagem de divulgar "exatamente" o que ele escrevesse ou falasse.  Compromisso assumido pelo repórter, as perguntas foram enviadas, por aplicativo, conforme combinado.

O engenheiro considerou os questionamentos "tendenciosos" e que a partir deles não tinha certeza de que o trato  com a reportagem "seria cumprido". Deixou claro apenas que não trabalhava havia mais de 10 anos para "Don Ángel" e não conhecia os herdeiros de João Batista Neto. 

Sobre a situação das "laranjas" ele disse que elas estavam nas sociedades porque ele as indicou e que não deviam ser procuradas pela reportagem. "A minha parte, é explanável a qualquer momento, posso falar de tudo. Mas a E. e A. P. não devem serem perturbadas, o que necessitar delas tem de falar comigo. Pode ser?"

As perguntas enviadas ao engenheiro foram:
- Qual a participação do senhor na abertura da empresa Nobleinvest em 2006 e na compra da Fazenda Jussara, em São Miguel do Tocantins, por essa empresa?
- O senhor avisou sua filha A. P. de que usaria o nome dela para abrir a Nobleinvest no Rio de Janeiro?
- O senhor deixou claro para ela que havia uma procuração para que ela se unisse à Ebanar, empresa uruguaia ligada à família Sanchís Perales?
- Por quanto tempo o senhor administrou a Fazenda Jussara? 
- O senhor deixou de trabalhar com o grupo espanhol? Se sim, quando ocorreu e qual o motivo do desligamento do senhor das atividades da Noblevinvest e da fazenda Jussara? 

Empresa se expande no Tocantins e exporta mais de mil toneladas de madeira por ano

A Nobleinvest exportou quase 6 mil toneladas de madeira nos últimos cinco anos, prioritariamente para a Índia, país em que a Teca é originária. As transações da venda de madeira para o exterior ultrapassam mais de US$ 2,6 milhões de dólares, segundo dados consultados pelo JTo na base do Ministério da Economia, de julho desse ano. 
 
Em 2016 foram 580 toneladas e valor alcançado de USS 294.750 dólares. No ano passado, em 10 remessas para o exterior o volume passou de mil toneladas, um incremento de 74% em relação a 2016. O faturamento alcançou US$ 490.852 dólares. 
 
A empresa também buscou se expandir no Estado, sempre na região do Bico do Papagaio.  Há dois anos, em agosto de 2018, na nona alteração contratual registrada na Junta Comercial do Tocantins (Jucetins), a Nobleinvest criou mais uma filial, localizada no loteamento Fazenda Serra, na Gleba Ibiapina, na zona Rural de São Miguel. 
 
Esta filial tem como atividade principal a criação de bovinos para corte, o cultivo de teca e de espécies de madeireiras e para extração de madeira em florestas plantadas, reflorestamento com abate de árvores e florestas nativas, entre outras atividades que incluem obras de terraplenagem, holdings de instituições não financeiras, comércio atacadista de madeira e derivados e fabricação de móveis de madeira.
 
Em 2 de julho deste ano, a Nobleinvest pediu a renovação de licença de operação para a atividade de serraria, bovinocultura e silvicultura da Fazenda Jussara. Quase duas semanas depois, também pediu renovação para mais duas fazendas. Na Fazenda Açaizal, em Itaguatins, também no Bico do Papagaio, o pedido é para criação de gado de corte. 

Outra licença é para a criação de árvores (silvicultura) na Fazenda Buriti, também em São Miguel do Tocantins. Nessa fazenda, já houve o plantio de pelo menos 263,4269 hectares de Teca em 2010 e mais 97,08 hectares em 2011.

 

Gaeco analisou transações da empresa e mandou o caso para o Ministério Público Federal

As transações da empresa Nobleinvest no Tocantins chegaram ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Tocantins (MPTO) em uma denúncia formulada pelo sistema eletrônico do órgão, em julho deste ano.  Também chegou ao Ministério Público de Goiás (MPGO) levada pela arquiteta que teve o nome usado para abrir as empresas no Brasil.

A denúncia da arquiteta sobre o uso de documentos falsos em seu nome foi analisada em Goiás pelo promotor Fausto Campos Faquineli. Diante da dificuldade de se identificar o local da falsificação, ele remeteu o caso para o MP do Tocantins com base no Código Penal. A lei entende que se é desconhecido o local da identificação, a competência do caso é da justiça do local onde o documento foi utilizado. 

No Tocantins,  o MPTO confirmou que há outra denúncia sobre o caso. Indexadas como suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas internacionais, as informações analisadas pelo Gaeco no Tocantins indicam a suspeita de que a fase de obtenção (pré-lavagem) possa ter ocorrido na Espanha e as fases de ocultação (lavagem e branqueamento) e a utilização (pós-lavagem) dos valores teriam ocorrido no Uruguai, Argentina e São Miguel, no Tocantins. 
 
O itinerário traçado pelo recurso levou a promotora de Justiça e coordenadora do Gaeco, Maria Natal de Carvalho Wanderley, a remeter a documentação para o Ministério Público Federal (MPF), por entender que a lavagem de dinheiro é um crime transnacional o que atrai a competência da Justiça Federal.  
 
“Uma vez iniciado o iter criminis da reciclagem, se, em qualquer de suas etapas, a conduta ‘tocar’ o território do Brasil e o de outro país, estará determinada a competência federal”, diz, na decisão do dia 6 de agosto. 

A defesa brasileira do grupo afirma que se houver abertura de investigação pelo MPF ou pelo MP do Tocantins, "os  advogados que atuam na Espanha apresentarão documentos junto ao Ministério Público Estadual ou Federal acerca da representação feita no Ministério Público que esclarecerão o caso".