Atualizada dia 29.8 às 8h04

A completar dois anos no domingo, 30, a morte do prefeito de Miracema Moisés Costa da Silva, o Moisés da Sercon, segue um mistério que a Polícia Civil do Tocantins não consegue desvendar, desde que o político apareceu morto com um tiro na cabeça próximo a Miranorte, no dia 30 de agosto de 2018. 

Agora, além de conviver com uma investigação que não chega ao fim, o espólio do político também enfrenta cobranças feitas na Justiça de pelo menos duas supostas dívidas deixadas por Moisés.

Uma dessas dívidas enfrentadas pelo espólio de Moisés é de R$ R$ 1.641.651,55, cobrada por Luciano Cerqueira Dantas, de 23 anos. A outra é cobrada por Paloma Pereira de Almeida, de Brasília, no valor de R$ 201 mil.

Luciano Cerqueira Dantas é filho de Wilma Cerqueira Marques e Luciano Ribeiro Dantas, que integram uma família de ciganos envolvida em uma disputa familiar com várias mortes e tentativas de homicídios em Goiás, na Bahia, Tocantins, Maranhão, Rondônia e no Distrito Federal.  

A dívida com o cigano é fruto de uma nota promissória de R$ 1,5 milhão emitida por Moisés para a mãe de Luciano Cerqueira, Wilma Marques, no dia 9 de janeiro de 2017, com vencimento para o dia 20 de junho de 2018. A promissória, porém, foi endossada por Wilma para o filho no dia 2 de abril daquele ano.   

 

O pai dele e a mãe dele escaparam de uma emboscada cometida contra cinco pessoas da família dele em Palmas, na noite de 26 de junho de 2018, quando João Vitor Cerqueira, primo de Luciano Cerqueira, morreu e resultou na prisão de várias pessoas, em Palmas e São Paulo. 

Um dos presos é irmão de um cigano que sofreu sequestro e esquartejamento na Bahia, por um grupo chefiado por Luciano Ribeiro, antes de se mudarem para Palmas. Após o atentado palmense, Ribeiro se mudou para Rondônia, onde morreu aos 43 anos, no mês seguinte, assassinado por tiros em um supermercado por pistoleiros que ainda estão presos e irão a júri.

O caso do homicídio e troca de tiros em Palmas ainda não teve desfecho. 

A outra dívida é cobrada por Paloma Pereira de Almeida, 27 anos, natural de Canavieiras (BA) e residente em Brasília, no valor de R$ 201 mil, fruto de três empréstimos, em dinheiro. O valor corresponde a duas notas promissórias de R$ 33.500,00 e outra de R$ 134 mil.

O que diz a família

O espólio de Moisés interpôs embargos à Execução, com pedido de efeito suspensivo da cobrança das dívidas.

O irmão de Moisés Fidel Costa afirma não saber sobre nenhuma das dívidas, sobre as quais lança desconfiança. "Até porque o Moisés não tinha nenhuma conta vencida no dia da morte que se tenha conhecimento. Ele era muito bom pagador e negociador dos seus negócios".

Fidel vê componente político como motivação da morte do irmão e para essas cobranças. "A oposição tem espalhado isso nas ruas. Porém não procede. Todas as contas dele estavam em dias. E a própria Polícia Civil pode confirmar isso. Pois tudo está sendo investigado.”

Ele afirma que a família vem protestando ao longo desses dois anos pela solução do caso e critica a gestão da Secretaria da Segurança Pública, a qual chama de "vergonhosa" por não dar condições para os investigadores. Ele enviou um card alusivo à data com cobranças sobre o caso.

O que diz a Polícia Civil

A Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da capital informou ao JTO que a investigação “continua em andamento” para que o crime “possa ser elucidado”. O órgão, porém, não confirma nenhuma linha de investigação, ao ressaltar “que cada investigação é um caso e que cada uma tem um tempo próprio”.

Às 18h29, a Secretaria da Segurança Pública encaminhou outra nota sobre o caso. Segue abaixo, na íntegra.

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-TO) esclarece que a Polícia Civil do Tocantins trabalha incansavelmente para esclarecer os casos de homicídios registrados em suas unidades. Num universo de aproximadamente 400 (quatrocentos) inquéritos de homicídios atualmente em curso na 1ª Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa de Palmas (1ª DHPP – Palmas), o caso do prefeito de Miracema do Tocantins, Moisés Costa (Moisés da Sercon), morto em 30 de agosto de 2018, tem seu andamento regular, porém em segredo de justiça, a fim de que sejam asseguradas as condições necessárias ao esclarecimento completo dos fatos, com a responsabilização dos eventuais culpados.

Tanto a Delegacia-Geral da Polícia Civil quanto ao SSP-TO, por meio de suas unidades de coordenação, têm feito esforços para dar o suporte necessário a todas as delegacias e especializadas da Polícia Civil do Tocantins em suas atividades, especialmente àquelas relacionadas ao combate ao crime organizado em quaisquer de suas modalidades.

A Segurança Pública ressalta que homicídios são, em geral, casos complexos, que muitas vezes levam tempo para serem elucidados a contento. Ainda assim, o trabalho é incansável, como demonstram os números da 1ª DHPP.  Somente neste primeiro semestre de 2020, a Divisão instaurou 114 inquéritos e finalizou 55. Em 2019, foram 174 inquéritos instaurados e 64 finalizados. Entre os casos solucionados, citamos o latrocínio da empregada doméstica Leidiene Pacheco, morta em setembro de 2018, e o homicídio do empresário Elvisley Costa, em janeiro deste ano.   

Em nome da 1ª DHPP de Palmas, o delegado-chefe Guido Camilo Ribeiro, reforça sua solidariedade para com a família do prefeito Moisés Costa. Informa, porém, que todos os inquéritos que tramitam na Divisão são prioridade. Afirma que entende a dor da família do prefeito e lembra que essa mesma dor é compartilhada por outras tantas famílias que também esperam a solução dos homicídios de seus entes queridos. 

Apesar do sigilo das investigações respectivas, a SSP-TO Informa que a família do prefeito Moisés Costa será recebida em audiência na Delegacia-Geral da Polícia Civil para ratificar uma vez mais, entre outros, seu compromisso com a conclusão técnica do inquérito policial que apura o caso, dentro do tempo estritamente necessário para que as diligências sejam realizadas a contento. 

A SSP-TO lamenta a dor das famílias tocantinenses que perderam seus entes queridos para a violência, e trabalha para dar a todas elas a melhor resposta estatal possível, apontando de forma cabal os responsáveis por tais crimes, sem qualquer tipo de discriminação ou privilégio, e valendo-se sempre dos melhores recursos disponíveis para a realização deste trabalho.

Viúva diz desconhecer dívidas 

A enfermeira e viúva de Moisés, Camila Fernandes, foi contatada por meio do advogado que atua nos processos de cobranças, ajuizados no ano passado, enviou a seguinte resposta, após a publicação da matéria.

Sobre a matéria veiculada nos meios de comunicação sobre ações de execução de notas promissórias em desfavor do espólio de Moisés Costa da Silva, gostaríamos de esclarecer que tais supostas dívidas foram contestadas na Justiça, pois a família desconhece a sua existência e não as reconhece, porém não adentraremos no mérito por entender que é um assunto que cabe à justiça decidir.

Lamentamos, porém, que pessoas mal intencionadas, aproveitando-se da aproximação do período eleitoral, queiram fazer uso político de um fato que compete à justiça.

A morte do Moisés é responsabilidade da polícia esclarecer e identificar os autores e sua motivação e acreditamos que será elucidado.

Não respeitam  dor da família, e tripudiam em cima de um assunto tão delicado, principalmente diante do momento.

A disputa eleitoral exige equilíbrio e respeito, não apenas aos concorrentes, mas principalmente ao povo, que espera propostas de seus representantes.