O sertão sempre foi um tema apaixonante para grandes escritores. De Guimarães Rosa, em seu clássico “Grande Sertão: Veredas”, a Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, de Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, ao novato Itamar Vieira Júnior, em sua recente obra “Torto Arado”, evidencia-se o quanto a vida sofrida desse Brasil rural é uma constante para muitos dos nossos grandes literatos.

Talvez o motivo da predileção por esse tema entre romancistas brasileiros possa ser justificado pela crença dos grandes autores russos de que quanto mais sofrido é um povo melhor a literatura se faz. Não é por acaso que relevantes obras produzidas na Rússia foram concebidas em ambientes de muito sofrimento. Esse foi o caso de “Arquipélago Gulag”, de Alexander Solzhenitsyn, de “Guerra e Paz”, de Tolstói, bem como da fabulosa obra “Os Irmãos Karamazóv”, de Dostoiévski.

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Cá entre nós, a literatura do sertão expressa a luta cotidiana dos personagens em um contexto de subdesenvolvimento – e tudo aquilo que isso representa: falta de estradas, carência de médicos, pouquíssima geração de empregos e, sobretudo, absoluta descrença no futuro.

Posso, então, dizer que o sertanejo carrega dentro de si frustrações de um mundo sem esperança.

Fiz esse preâmbulo para expor alguns depoimentos dessa melancolia sertaneja pesquisada pela Universidade Federal Fluminense, no norte do estado de Goiás, hoje, Tocantins. Os depoimentos se referem à aventura de migrações de retirantes maranhenses, a partir de 1925, rumo à região de Itacajá em busca de melhores condições de vida. Percebe-se, nesse material, a dura face de um sertão inóspito e bravio. Posto isso, vejamos a fala de alguns sertanejos.

Primeiro: quanto à prole de filhos

“Até já tenho uns poucos janeiros, mas é assim: não era nada, uma que eu casei e era danada pra trabalhar de roça e aí tive muitos filhos, num é? Eram seis homens e seis mulheres, pois é, que eu tive. E criei uma neta porque minha filha adoeceu”. Estamos falando de um tempo em que não havia métodos para evitar a gravidez. Especificamente nesse sertão, era comum mulheres terem muitos filhos, de dez a quinze.

Segundo: no sertão, o médico era a parteira

“Quando a mulher ia ganhar menino, aquela que tinha um parto menino, aquela menino, aquelas que tinham parto complicado, que não dava pra ter o bebê, morria de parto. Minha filha morreu de parto, a segunda mais velha, era de 1942, e a outra, de 1944, essa morreu de parto do primeiro filho, aí ficou o menino, eu pelejando com ele e quando estava com um mês que a mãe tinha morrido, ele morreu”. Uma triste realidade dos sertões bravios é a absoluta falta de médicos. Sem esses profissionais os sertanejos acabam morrendo por contraírem doenças absolutamente curáveis.

Terceiro: quanto à capacidade de locomoção

“Pra viajar nesse tempo, ou era no transporte fluvial ou era de animal. Mas daqui pra Carolina, que era a Metrópole, da Metrópole só de barco ou a cavalo”.O sertanejo é “antes de tudo, um forte”, pelo fato de viver uma vida repleta de escassez sem jamais perder a ternura.

Encerro estes escritos com a mensagem que espero ter passado aos leitores. O tema sertões fascina pelo fato de evocar a capacidade humana de sobreviver em um estado natureza repleto de escassez ,distante dos benefícios da modernidade. Isso produz boa literatura. Que o digam os russos e seus grandes escritores.

Salatiel Soares Correia é Engenheiro, Bacharel em Administração de Empresas, Mestre em Energia pela Unicamp e autor de oito livros relacionados às áreas de Empresas e Desenvolvimento Regional.

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