Natural de Araguaína, no Norte do Estado, mas radicado em São Paulo há 26 anos, o escritor Hermes Leal lança hoje, na capital paulista, seu segundo romance, intitulado Antes que o Sonho Acabe, pela Geração Editorial. A noite de autógrafos acontece a partir das 18 horas, na Livraria Cultural do Conjunto Nacional da Avenida Paulista.

O livro narra a história do personagem Daniel, que relata a sua visão sobre aspectos da guerrilha e da ditadura militar brasileira (1964-1971), período em que passou a infância e a adolescência às margens do Rio Tocantins. Sem didatismo, a obra é, sobretudo, a história de um adolescente sonhador, que vira herói sem querer.

O autor, que reúne ainda no currículo a função de diretor de conteúdo do canal Cinebrasiltv, da SKY, editor-chefe e criador da Revista de Cinema, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal do Tocantins, para o qual fala da obra e de temas como a ascensão profissional e os desafios à literatura e ao fazer cinema no País .

 

O livro é baseado na guerrilha e na ditadura militar. O personagem central, Daniel, é uma criação do autor ou faz parte da história real?

O livro é uma ficção e Daniel é um personagem inventado, assim como toda a história. É que eu escrevi uma história tão real que o leitor acha que é uma biografia de alguém que viveu realmente aqueles eventos narrados. Eu levei mais de dois anos escrevendo e reescrevendo a história até ficar bem lapidada e bem escrita. Estou buscando uma literatura calcada em uma boa história e em bons personagens.

O pano de fundo para a história é a região Norte do Tocantins e o que acontecia no Brasil e no mundo no início da década de 70. Ou seja, o personagem se envolve com a guerrilha, mesmo jovem, e com isso mostra os problemas que isso criou na região.

Assim como o reflexo da divisão do mundo na época da guerra fria, com a Rússia de um lado e os EUA de outro, vai refletir diretamente sobre o personagem e toda a população da pequena cidade fictícia que eu criei, que fica às margens do Tocantins.

O mais importante para mim foi escrever uma boa história e falar de uma cultura tocantinense, demarcar o que somos, como vivemos e como pensamos. Precisamos demarcar nossa cultura tocantinense tanto na literatura como no cinema.

 

O que o estimulou a produzir esta obra?

O que me estimulou foi o fazer literário. Sou um escritor lançando meu quinto livro, e o primeiro a entrar na cultura do Tocantins. E outros deverão surgir, já estou escrevendo meu terceiro romance, e que se passa também em nossa terra.

Além do livro, também tenho um projeto de cinema, um longa-metragem para ser filmado ano que vem no Tocantins. Chama-se Neste Lugar da Terra, já está registrado na Ancine e concorrendo a editais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e Ministério da Cultura. É uma ficção que se passa em uma aldeia Krahô.

Vivi a infância e a adolescência banhando nas águas do Rio Tocantins, ouvindo as músicas do Genésio Tocantins (vivíamos na mesma cidade, Goiatins, no fim dos anos 70) e tenho muitas histórias guardadas para explorar.

Além disso, mesmo morando muitos anos longe do Tocantins, estou também passando uns tempos em Palmas, onde passarei mais tempo de agora em diante, especialmente para poder pescar, que adoro muito, e conviver mais com os velhos amigos.

 

Há lançamento previsto no Tocantins?

Acho que no início de 2015 faremos um bom lançamento em Palmas. O livro está chegando às livrarias esta semana, e além do lançamento em São Paulo, também vamos lançá-lo no Rio de Janeiro, Ceará, Brasília e outras cidades onde devemos receber convites para lançar o livro.

 

Você é natural de Araguaína, qual a sua ligação com a cidade hoje?

Nasci em Araguaína, mas me criei na região de Goiatins e de Carolina (MA). Boa parte de minha família mora em Araguaína, mas vou muito pouco à cidade, fico mais em Palmas. Mas eu adoro ser tocantinense. Eu viajo muito, rodo o Brasil e o mundo, e sempre quando digo que sou tocantinense as pessoas, às vezes, me dizem que é o primeiro tocantinense que conhecem. Apesar de sermos um Estado novo, temos uma cultura bem enraizada, e na qual estou inserido e me orgulho muito.

 

Conte sobre a sua trajetória: o que o levou ao grande centro do País e à consolidação da carreira?

Nunca planejei minha vida, o que iria fazer ou ser. Só tive muita vontade de fazer as coisas que queria e de achar que poderia ser mais ou melhor do que eu era. Minha vontade me moveu.

Minha trajetória é muito longa. Vivi até os 8 anos em uma fazenda às margens do Rio Vermelho, próximo à reserva dos Krahô, e dividi a adolescência entre Goiânia (GO), Brasília, Goiatins (TO) e Carolina (MA). Aos 20 anos, quando fui terminar o primeiro grau, em Brasília, descobri a literatura em uma velha revista chamada Clube do Livro, de lá para cá não parei mais de buscar esse sonho.

Fiz jornalismo nos anos 80, em Goiânia, e fui para São Paulo fazer um mestrado em cinema e trabalhar na TV, onde trabalhei em muitos canais (fiquei dez anos somente na Rede Manchete). Desde então me divido entre esses três meios: cinema, TV e literatura.

 

Qual o desafio de escrever hoje no Brasil?

Quem faz literatura no Brasil tem de saber que estamos entrando em um campo que não é muito bom no País. Mesmo assim, a gente insiste, porque ser escritor não é uma opção. Nascemos para isso, caso contrário não daria certo. Mesmo assim eu estudo muito para melhorar meus livros.

Fiz mestrado em Cinema, especializando em Roteiro, e estou finalizando um doutorado em Semiótica, ambos na Universidade de São Paulo (USP), com especialidade em narrativa. Estudo na semiótica o sentido da vida, dos ser passional dos personagens, os estados patêmicos de alma que todos temos e que é a riqueza de toda boa literatura ou cinema.

 

E o de fazer cinema?

O desafio de fazer cinema é maior. Precisa de muito dinheiro. Senão estaria com muitos filmes na prateleira, mais do que tenho feito. Neste momento o cinema está tendo mais recursos que antes, e podemos até sonhar em fazer grandes projetos no Tocantins, através de recursos federais, como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que investe em projetos localizados nas regiões, e não somente no eixo Rio e São Paulo.

Estou com minha produtora instalada também em Palmas (HL Filmes) e já começamos a desenhar uma linha de projetos de cinema e TV. O primeiro é o filme de ficção Neste lugar da Terra, e outro é um documentário sobre a Guerrilha do Araguaia. Ambos estão bem desenvolvidos e em captação no FSA. Estamos criando também um núcleo criativo com os cineastas tocantinenses, temos bons autores, como a Eva, o Hélio Brito, a Juliane Almeida, entre outros.

Serviço

O quê: Lançamento do livro Antes que o Sonho se Acabe

Quando: Hoje

Onde: Livraria Cultural do Conjunto Nacional da Avenida Paulista, São Paulo (SP)

Horário: 18 horas

Onde encontrar a obra na internet: Co meçou a ser distribuída esta semana e pode ser encontrada em livrarias online

Custo: R$ 30,00

 

PERFIL

Hermes Leal, natural de Araguaína, Norte do Estado, é diretor de conteúdo do canal Cine Brasil TV, da SKY; editor-chefe e criador da Revista de Cinema, única publicação impressa no País dedicada ao audiovisual brasileiro, há 15 anos no mercado. É autor do romance Eu Sou Foda ! (1998), 2ª edição em 2006 como Faca na Garganta; das biografias O Enigma do Coronel Fawcett (4ª edição) e O Homem da Montanha (2008); e do livro de aventura O Quilombo Perdido (1995). É mestre em Cinema pela ECA/USP, com especialização em roteiro, e doutorando em Semiótica, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). É diretor de vários documentários, entre eles o longa-metragem Soldados a Caminho do Puteiro - Memórias de uma Guerra Quase Imaginária, e o curta Dona Militana - A Romanceira dos Oiteiros. É autor de série de seis documentários baseados no programa Café Filosófico da TV Cultura. Morador de São Paulo desde 1988, casado e com dois filhos, Hermes Leal ainda toca a produtora HL Filmes e está produzindo documentários. Lançou um site de ajuda aos jovens cineastas, o www.acfa.com.br, com video aulas e uma agência para vender projetos, roteiros de cinema e TV.

 

Emboscado pela história

Personagens são imortais? Não, só os bons sobrevivem por muito tempo e ressuscitam renovados a cada leitura. É o caso do adolescente Daniel, criado pelo escritor, documentarista e diretor de TV Hermes Leal. De coração puro, apanhando do pai e da vida, o rapazinho vai descobrindo o mundo por linhas tortas. Se na história bíblica a humanidade perde a inocência comendo do fruto proibido, Daniel compreende o mundo dos adultos dividindo a primeira maçã da sua vida com uma... (não vou revelar). Ele tentou ver uma mulher pelada num puteiro, mas acabou vendo a primeira nudez em circunstância que jamais imaginaria. E não era nenhuma prostituta, muito longe disso, era uma... (outro segredo que o leitor irá descobrir).

Neste romance baseado em fatos reais, embora não autobiográfico, Leal dá um pulinho até o final da década de 1960 para ver o que se passava em pleno sertão amazônico, numa cidadezinha “desconectada do mundo”, às margens do rio Tocantins. E nos apresenta Daniel, um garoto quase índio, que, pouco a pouco, acaba inoculado pelo veneno da “civilização”, tendo a sua trajetória virada de ponta-cabeça.

Era o tempo da Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia, da Guerra do Vietnã, do rock requebrante, da chegada do homem à Lua, dos primeiros televisores nos lares brasileiros, do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), dos Beatles, da férrea censura militar e das guerrilhas. Sim, das guerrilhas, que entram na vida de Daniel visceralmente, colocando por terra o seu sonho de simplesmente casar-se com o primeiro amor e depois mudar-se para uma cidade grande, cujas notícias recebia pelo rádio e através de revistas envelhecidas.

O leitor conviverá com personagens expressivos, como o barbeiro Alfredo, que mantinha uma banda de jazz em pleno sertão, com o pai de Daniel, um homem sem nome, ferreiro grosseirão e opressor, que, obstinadamente, construía um abrigo para proteger a família dos eventuais efeitos de uma bomba atômica, como se fosse uma arca de Noé, e outras figuras marcantes, como o jovem Victor, carioca enviado ao lugarejo para se tratar de uma doença grave com águas sulfurosas, sem contar o soldado do exército Geraldo, que ganha por cabeça, literalmente, caçando guerrilheiros na selva, entre outros.

Tudo é muito forte e pungente em Antes que o sonho acabe. Leal utiliza uma linguagem informal, de cabelos ainda molhados e soltos, de quem acaba de sair do banho. As suas frases vestem sandálias, fogem da gramática bem-comportada e ganham velocidade, encadeadas em determinados trechos como se fossem simples palavras, para dizer depressa, informar sem respirar, para não perder o fio da meada. E o coração do leitor sai fortalecido, cheio de adrenalina. Uma aula de vida, uma aula de história sem qualquer didatismo. É o leitor sentindo na pele o que Daniel sentiu.

Texto de apresentação do livro, do jornalista Jaime Pereira da Silva, de São Paulo.