Sustentabilidade

As lógicas absurdas na questão do lixo no Brasil

A gestão do nosso lixo urbano baseia-se em uma série de lógicas absurdas: (1) a população sujar e cobrar dos prefeitos que limpem, no excesso da cultura dos direitos sem deveres; (2) pagarmos para grandes empresas levarem muito lixo e enterrarem bem longe - ótimo para elas, caro para nós; (3) tratarmos o lixo como “lixo”, não como um monte de materiais de valor; (4) falarmos em lixo “reciclável” e “não reciclável”, sendo que a porção orgânica é a mais fácil de reciclar, dar uso e valor, na visão da biologia. Precisamos da inversão destas lógicas insanas, com uma gestão de resíduos multimodal, criativa mas simples – baseada na lógica inteligente e sistêmica dos 5 “R”: reduzir, reciclar, reusar, reeducar e repensar.

Reduzir

A ótica aqui é não haver lixo – pelo consumo mínimo de embalagens, sacolas, papel impresso, toalhas de papel, do que quer que seja. Pelo descarte com separação e destinação adequados, doando e olhando para qualquer coisa como algo a ser aproveitado por alguém que precisa. Por não desperdiçar alimentos e outras dádivas. Pelo não sujar e até pelo limpar as ruas. Por respeito.

Reusar

Móveis, objetos de decoração, eletrodomésticos, eletrônicos, lonas, peças de madeiras ou metais, pneus - qualquer coisa continua sendo aquilo que é. É o lixo da nossa cultura que nos faz olhar tudo isto como “lixo”. Os melhores projetos desta vertente usam a visão de logística reversa, o retorno aos fabricantes originais ou equivalentes. E também de PVA – produtos e parcerias de valor agregado, pelo design, arte e marketing. Para cada coisa, novas oportunidades e olhares para a sua vocação.

Reciclar

Se temos uma taxa que passa os 95% de reciclagem na cadeia das latinhas de alumínio, é possível avançar muito nos outros metais, nos plásticos, isopor, óleos, papel e similares.

Para se aprofundar, veja “Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2015” e “Resíduos Sólidos – Manual de Boas Práticas no Planejamento” em http://www.abrelpe.org.br.

Reeducar

Quem mais precisa de educação, para novos olhares e práticas, são os adultos: pais, gestores, técnicos, colaboradores. Somos nós os contaminados pelo lixo mental e moral destas lógicas mecânicas, de valores subvertidos, que apodrecem o Brasil e a espécie humana. Não s ão as crianças, elas são puras.

Repensar

A lógica do enterrar está superada pela da matriz energética - quer seja a partir de metano ou de queima direta. Também pela do consumo consciente, do aproveitamento, da cidadania e da educação - não gerando lixo, não sujando a cidade. Ou seja, o mais importante é repensar a vida e as coisas. Fazer diferente, a partir de bons modelos, ideias e ideais.

A sua parte

Se você repensar os velhos hábitos, fica fácil colaborar com a gestão dos resíduos da sua cidade - em casa, na rua, no trabalho. Os princípios são sempre os mesmos: (1) lixo separado e concentrado é solução e dinheiro; lixo misturado e espalhado, problema; (2) buscar quem coleta e usa cada material; (3) fazer compostagem, pois o lixo orgânico é 50% do problema e muito valioso quando transformado em adubo; (4) entender, praticar e cobrar os 5 “R” e o não sujar como seu dever de cidadão, não como opção. Como em tudo que envolve o nosso atraso, não é uma questão técnica ou de recursos, mas sim da atitude de todos. Lembrar não só dos direitos, mas do trilema querer, poder, dever.

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