Crônicas & causos

Palmas, 27 de setembro de 2009

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Odir Rocha
Secretário Municipal de Cultura
semuc@palmas.to.gov.br

O esturro da pintada

Seis horas da tarde e nada. Zé Prequeté, sertanejo traquejado nascido e criado na beira do ribeirão das Cunhãs, da distância de grito das alvas praias do Araguaia, afirmara ao patrão que a onça começaria a esturrar às cinco e meia. Acontecido em todas as tardes dos quatro dias anteriores. Ninguém astuciava e nem atinava o porquê da pintada ter hora marcada para dar as suas fortes rosnadas. No pé da Serra do Estrondo tinha paredão com locas suficientes para abrigar felinos andarilhos no cio com cria nova. Não era tempo nem de um nem de outra. Onça é que nem cachorro, onde o tempo mais destinado à cruza é no mês de agosto. Como já estamos no finalzinho de setembro, não tem jeito também de ser época de parição, tempo sim no pispiar de outubro, cuja lua cheia é boa para plantar rama de maniva que dá mandioca enxuta e, castanha de caju pra chupar a fruta daí a doze meses. Esse ano foi um descomedimento de queimadas que muita coisa destruiu e da chuvarada por demais atrasada.

Pode ser que o bicho brabo andou se sapecando ou então desmentindo alguma junta das patas, fugindo do fogo, provando algum dolorimento, induzindo a danada a ficar gemelicando mais alto, arremedando mais alto. Suscetível também que tenha levado algum balaço por aí e veio curtir o ferimento em algumas das cavernas existentes no local do alto da serra.

Já são seis e meia da tarde e a onça ainda não esturrou deixando avexado Zé Prequeté, que era um peão não dado a invencionices. Só dava na vazia de brigar quando alguém dava lembrança das gozações do tempo e moleque em que azucrinavam em algazarra gritando alto: Zé Prequeté tira bicho do pé pra tomar com café. Aí o xará do pai de criação de Jesus Cristo virava bicho; escumava nos canos da boca e partia que nem marruco brabo em cima de qualquer cristão. Forante isso, o Zé era só mansidão, lerdo de coçar.

- E a onça que não dá os ares da graça, seu Zé? Já são sete horas da noite e nada.

- Pois é patrão, onte, antonte e trezantonte ela urrou quase de hora marcada. Hoje tá muito esquisito com essa silencieira toda.

Silêncio que perdurou a noite inteira. Depois de tomar uns tragos da boa que veio lá do norte de Minas e tirado o ranço alcoólico com os últimos cajus da temporada, temperados com sal para aliviar a trava e limpar a goela do ardume da cachaça, o povo que proseava enquanto a onça não esturrava foi dormir. De manhãzinha algumas nuvens marotas querendo juntar para formar a tão esperada chuvarada testemunharam a matilha de vira-latas da fazenda, que no raiar do dia foi para a serra acuar os restos mortais da onça pintada que não havia resistido a um grave ferimento nas apá esquerda, de uma cartucheira calibre doze, mais malvada que a própria que sucumbiu.

- Viu só patrão, foi por isso que a bicha não esturrou ontem. Devia já tá morta e bicho morto num geme, filosofou Zé Prequeté.

Envie sua crônica ou causo (de 30 a 45 linhas) - acompanhado de uma foto para o email jtoartevida@jornaldotocantins.com.br