Odir Rocha
Secretário Municipal de Cultura
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O esturro da pintada
Seis horas da tarde e nada. Zé
Prequeté, sertanejo traquejado nascido e criado na beira do
ribeirão das Cunhãs, da distância de grito das alvas praias do
Araguaia, afirmara ao patrão que a onça começaria a esturrar às
cinco e meia. Acontecido em todas as tardes dos quatro dias
anteriores. Ninguém astuciava e nem atinava o porquê da pintada
ter hora marcada para dar as suas fortes rosnadas. No pé da
Serra do Estrondo tinha paredão com locas suficientes para
abrigar felinos andarilhos no cio com cria nova. Não era tempo
nem de um nem de outra. Onça é que nem cachorro, onde o tempo
mais destinado à cruza é no mês de agosto. Como já estamos no
finalzinho de setembro, não tem jeito também de ser época de
parição, tempo sim no pispiar de outubro, cuja lua cheia é boa
para plantar rama de maniva que dá mandioca enxuta e, castanha
de caju pra chupar a fruta daí a doze meses. Esse ano foi um
descomedimento de queimadas que muita coisa destruiu e da
chuvarada por demais atrasada.
Pode ser que o bicho brabo andou
se sapecando ou então desmentindo alguma junta das patas,
fugindo do fogo, provando algum dolorimento, induzindo a danada
a ficar gemelicando mais alto, arremedando mais alto. Suscetível
também que tenha levado algum balaço por aí e veio curtir o
ferimento em algumas das cavernas existentes no local do alto da
serra.
Já são seis e meia da tarde e a
onça ainda não esturrou deixando avexado Zé Prequeté, que era um
peão não dado a invencionices. Só dava na vazia de brigar quando
alguém dava lembrança das gozações do tempo e moleque em que
azucrinavam em algazarra gritando alto: Zé Prequeté tira bicho
do pé pra tomar com café. Aí o xará do pai de criação de Jesus
Cristo virava bicho; escumava nos canos da boca e partia que nem
marruco brabo em cima de qualquer cristão. Forante isso, o Zé
era só mansidão, lerdo de coçar.
- E a onça que não dá os ares
da graça, seu Zé? Já são sete horas da noite e nada.
- Pois é patrão, onte, antonte
e trezantonte ela urrou quase de hora marcada. Hoje tá muito
esquisito com essa silencieira toda.
Silêncio que perdurou a noite
inteira. Depois de tomar uns tragos da boa que veio lá do norte
de Minas e tirado o ranço alcoólico com os últimos cajus da
temporada, temperados com sal para aliviar a trava e limpar a
goela do ardume da cachaça, o povo que proseava enquanto a onça
não esturrava foi dormir. De manhãzinha algumas nuvens marotas
querendo juntar para formar a tão esperada chuvarada
testemunharam a matilha de vira-latas da fazenda, que no raiar
do dia foi para a serra acuar os restos mortais da onça pintada
que não havia resistido a um grave ferimento nas apá esquerda,
de uma cartucheira calibre doze, mais malvada que a própria que
sucumbiu.
- Viu só patrão, foi por isso
que a bicha não esturrou ontem. Devia já tá morta e bicho morto
num geme, filosofou Zé Prequeté.
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