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Palmas, 27 de setembro de 2009

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ENTREVISTA

“Ninguém pode lavar as mãos nessa vida”

Elisangela Farias
Palmas

“Lucia, uma professora de piano que ficou viúva recentemente, é surpreendida pela notícia de que seu único filho matou uma jovem. Decidida a tirar o rapaz da prisão, ela se envolve com a organização criminosa responsável por uma série de ações que transformarão a maior metrópole do País em um inferno.” Essa é a sinopse do filme Salve Geral, do diretor Sergio Rezende, selecionado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar 2010.

Com elenco com mais de 60 personagens com fala, o filme reúne atores com grande experiência na cena teatral de São Paulo, como Denise Weinberg (Ruiva), Lee Thalor (Rafa), Bruno Perillo (Professor), Guilherme Sant’Anna (Pedrão), Eucir de Souza (Chico), Paschoal da Conceição (Dr. Pereira) e o carioca Kiko Mascarenhas (delegado Raul), Michel Gomes e Juliano Cazarré.

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Tocantins, o cineasta lembra que não quis favorecer nem o lado da polícia nem o dos bandidos. “Não se trata de favorecer, mas de revelar com a mesma clareza os dois lados da questão.” Rezende fala ainda, de forma confiante, que Salve Geral tem condições de levar a estatueta porque tem qualidade. Confira a entrevista.

“Foi isso que quis fazer com Salve Geral. Não simplesmente mostrar uma realidade, mas buscar revelá-la. É uma tarefa e tanto, talvez impossível num só filme, mas o desafio me estimulou.” É mais fácil fazer um trabalho partindo da realidade para a ficção?

Andre Breton, um dos pais do surrealismo disse uma vez: “O que há de mais extraordinário na realidade é que a realidade não existe, tudo é extraordinário”. Nenhum fato é o mesmo para todos e na arte todos os fatos conduzem à imaginação. E vem dela a criação, território onde não há facilidades.

O Homem da Capa Preta, Lamarca, Canudos, Mauá e Zuzu Angel também são filmes de sua autoria, que partem da realidade para a ficção. O que difere Salve Geral dos demais?

Outro assunto, outros personagens, portanto outra abordagem, outra imagem, outro ritmo. O cinema é uma fábrica que só produz protótipos, nenhum filme repete o anterior.

Você escolheu uma mulher como protagonista e decidiu que ela seria de classe média. O porquê disso? As mulheres também têm força no mundo do crime?

Quis ter uma mulher de um mundo que de repente é jogada em outro, brutal. Achei que quanto mais ela fosse “cega” para a realidade que a cercava, mais intensa seria sua descoberta desse novo mundo, no caso o do sistema penitenciário brasileiro.

Você arriscaria a dizer o que levou a comissão do Ministério da Cultura escolher o filme?

Só posso acreditar que seja a qualidade do filme. Outro critério seria absurdo.

Acha que o filme causará polêmica, como Tropa de Elite?

Espero que sim. O que é polêmica afinal? Opiniões divergentes, troca de ideias e visões de mundo. É isso que estimula a convivência humana e nos leva a avançar.

Em algum momento quis favorecer um lado, o da facção ou da polícia?

Não se trata de favorecer, mas de revelar com a mesma clareza os dois lados da questão. E toda a sociedade é responsavel. Nós somos o Estado, nós pagamos impostos e elegemos nossos governantes. Nós, a sociedade, somos a polícia; de nós, sociedade, vêm os criminosos. Ninguém pode lavar as mãos nessa vida.

Em entrevista à Agência Estado, você diz que o filme tem tudo para chegar à disputa final e ganhar a estatueta para o Brasil pela primeira vez. O que faz com que tenha tanta confiança?

Salve geral é um ótimo filme. Tem tanta chance quanto qualquer outro.

Acredita que o cinema brasileiro está em um bom momento?

Muito bom. Tem diversidade, tem filmes voltados para o grande público como tem outros mais preocupados com questões estéticas, sociais e políticas. É a pluralidade que vai nos fortalecer cada vez mais.

Quais as dificuldades ainda de se fazer cinema no Brasil?

As mesmas do mundo inteiro: recursos e mercado. Um País de 180 milhões de habitantes vende 90 milhões de ingressos por ano. É muito pouco. O dia em que cada pessoa tiver grana pra ir mais às salas tudo ficará mais fácil.

Para finalizar, qual a mensagem de Salve Geral?

Paz, justiça, liberdade.

Saiba Mais
O filme

As filmagens de Salve Geral aconteceram no segundo semestre de 2008 e início de 2009, em cinco cidades: Paulínia e Campinas, no interior paulista, Rio de Janeiro, São Paulo e Foz do Iguaçu. O principal pólo de produção foi montado em Paulínia, onde a equipe passou sete das 11 semanas de filmagem. No Rio as filmagens se concentraram no presídio desativado da Frei Caneca. A Toscana Audiovisual assina a produção. Esta é a terceira parceria da empresa de Joaquim Vaz de Carvalho com o diretor Sergio Rezende. Juntos eles fizeram Zuzu Angel (2006) e Mauá – O Imperador e o Rei (1999). (Informações assessoria de comunicação do filme)