TENDÊNCIAS
E
IDÉIAS

Palmas, 22 de julho de 2008

A cultura sem-lei

Alexandre Garcia
é jornalista
contato@alo.com.br

Nós estamos tão acostumados com o descumprimento das leis e a conseqüente impunidade, que facilmente acreditamos nas mentiras de nossas autoridades quando dizem que esses problemas são mundiais. Não são. O pior é que, acreditando nisso e cegos por essa cultura pouco civilizada, temos a mania de achar que brasileiros, quando pegos pela lei no exterior, são pobres injustiçados. Claro que não me refiro ao Jean Charles, morto pela polícia londrina numa desastrada operação no metrô de Londres. Operações assim desastradas têm sido diárias, por parte da polícia militar no Brasil. Lá, foi esse o único caso. E abalou os brasileiros mais do que as crianças mortas diariamente por tiros da polícia militar no Brasil. Estranho.

Agora mesmo os jornais abrem manchetes para contar como outra brasileira foi injustiçada e perseguida num aeroporto de entrada em país estrangeiro. A filha do embaixador do Brasil em Israel. A moça mora em Londres, onde estuda medicina, e ia aproveitar a presença do pai em Israel para fazer lá um curso de sua área. A vinda de Londres, com passaporte brasileiro, para estar com o pai em Israel e fazer curso, mais o fato de se chamar Leila, fez com que a cuidadosa polícia de fronteira de Israel a retivesse por mais um pouco, para saber mais sobre ela. Leila é um nome típico árabe. Lembro de Leila Khaled, a seqüestradora de aviões, hoje com 63 anos.

Pois o pai embaixador, justificadamente impaciente, resolveu irromper pelas instalações da polícia de fronteira e, nervoso, tomou o passaporte da mesa do agente, exigindo satisfações pela demora na liberação da moça. Poderia como diplomata, agir diplomaticamente, e explicar que é embaixador, que sua filha estava lá dentro e pronto, ficaria tudo esclarecido. Mas entrou com a força das "autoridades" aqui no Brasil, na base do “você sabe com quem está falando?”, como se em país sério isso significasse alguma coisa. Esqueceu-se de que aqui no Brasil pode ser apenas uma frase constitucional a de que “todos são iguais perante a lei”, mas em países civilizados, isso é para valer. Pegou mal, ficou feio, embora ele tenha-se apresentado como um autêntico representante dos modos brasileiros.

No mesmo dia, em Madri, uma moça brasileira, com visto de turista, tentou entrar na Espanha, explicando que não tinha reserva de hotel porque iria ficar com o namorado espanhol. Ora, há milhares de brasileiras nesse caso, ilegais na Espanha. Morando com o namorado espanhol, trabalhando lá, em geral como garçonete ou camareira, e sem visto de permanência. Como não tinha esse visto, a moça teve que voltar. E voltou chorando e virou notícia na TV, como se a Espanha não tivesse o direito de aplicar suas leis na cidadã do país em que só obedecem as leis por querer e não porque haja imposição delas por parte das autoridades. De 600 brasileiros que entram na Espanha por dia, três vêm sendo mandados de volta. E nós, jornalistas, apresentamos isso ao público como um preconceito, uma perseguição...

Volta e meia um brasileiro é condenado à morte ou prisão perpétua nos Estados Unidos, por assassinato. Em geral, está ilegal no país. Aí, nós, jornalistas, nos mobilizados para defender o pobre assassino. Afinal, ele é um brasileiro que teve a má sorte de matar nos Estados Unidos. Se estivesse aqui, teria mais de 90% de chance de ficar em liberdade.