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Palmas, 22 de julho de 2008

MÚSICA

Nos bastidores da criação

Quem nunca ouviu a música Julieta? Ela estourou na década de 80; Em visita a Palmas, o autor Fernando da Costa Santos contou ao JTo como foi que a canção surgiu

Lenna Borges
Palmas

Shara Rezende

Santos: “o compositor se for viver de música aqui não dá. Execução dá dinheiro, composição não, exceção talvez para Roberto Carlos”

O advogado e compositor Fernando da Costa Santos, de São Vicente (SP), está em Palmas para visitar amigos e conhecer a mais nova capital brasileira. Ele é o compositor da canção Julieta, gravada pelo alagoano Sandro Becker, música que estourou nas paradas do Centro-Sul do Brasil, em 1986. Na época, advogado criminalista, sua experiência artística se resumia ao emprego de locutor de comerciais em uma rádio na cidade.

Em entrevista ao Jornal do Tocantins, Santos diz que no Estado conhecia apenas Gurupi e Formoso do Araguaia, onde tinha parentes. “Até já pesquei no Rio Formoso, agora Palmas não conhecia. Vim para conhecer a cidade e aproveitar os poucos dias de férias”, revela. Atualmente, Santos advoga na área civil e revela que compõe apenas para a esposa.

Compositor de inúmeras canções e com dezenas gravadas, apenas Julieta fez sucesso, e tudo começou com a idéia de chamar atenção do público das casas noturnas paulistas. Santos conta que conheceu Ruidil Caetano, parceiro da composição de Julieta, em 1984, em uma festa junina em São Vicente (SP). “Ele é do Paraná e na época cantava em São Paulo músicas de Roberto Carlos com play back. Gostei da voz, muito parecida com o Rei. Depois do show fui falar com ele e entreguei o meu cartão para que ele me procurasse”, revela.

Sucesso
Segundo Santos, algum tempo depois Ruidil foi ao seu escritório e começaram a conversar sobre música e a relembrar os divertidos versinhos populares. Depois do primeiro contato, Santos passou a vender as apresentações de Caetano em casas noturnas no estado de São Paulo. “Mas percebi que ninguém dava muita bola para quem está no palco, a música é sempre em segundo plano. E na época, o Genival Lacerda tinha estourado com a canção Ela Deu o Rádio. Comentei que precisávamos de algo no mesmo estilo para acordar a platéia nos shows”, conta.

E foi assim que os versinhos com o refrão “Julieta tá tá, tá me chamando” para ligar uma estrofe a outra, se transformou em melodia. “Depois gravamos uma fita cassete que ele levava para as apresentações e as pessoas gostavam e se divertiam. Em uma viagem a sua terra natal, Ruidil foi convidado para uma entrevista em uma rádio e ele acabou falando da música, o locutor ficou interessado, tocou e as pessoas ligavam pedindo para repetir. Uma pessoa da Jovem Pan ouviu, ligou e daí para frente foi uma febre”, lembra.

“E pensar que o Becker não queria gravar, mas como a gravadora tinha comprado a música da gente, ele foi meio que ‘obrigado’ a gravar e foi até hoje seu maior sucesso”, comenta.

Dinheiro
Santos revela que o único dinheiro que ganhou como compositor, além dos direitos repassados pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que segundo ele, é muito pouco, foi com a venda do tape (matriz) da música Julieta para o paraense Carlos Santos. “Depois de certo tempo a composição se torna de domínio público, e a autorização é dada pela editora, claro que o autor pode questionar, mas são processos complicados”.

Santos conta que ele e Ruidil tomaram conhecimento que um grupo de Los Angeles, nos Estados Unidos, gravaram Julieta. “Contratamos uma advogada lá para entrar com o processo de direitos autorais, mas não tive resposta, não sei o que aconteceu”, garante. “Mas digo uma coisa, se eu tivesse gravado uma única música nos Estados Unidos eu teria feito minha vida, mas no Brasil a música estabiliza as gravadoras, o compositor se for viver de música aqui não dá. Execução dá dinheiro. Composição, não; exceção talvez para Roberto Carlos”.

Composição
A composição não faz partes dos projetos do advogado Santos. “Hoje, faço apenas para a minha mulher, mas ainda tenho umas 20 composições, e duas que gosto muito e pretendo que sejam gravadas, uma delas é em homenagem aos pais, que tem a ver com a minha vida”.

De acordo com Santos, um letrista que não é músico precisa de parceria para completar uma composição, porque entre a fonética escrita e a musical há uma grande diferença, a musicalidade, que só pode ser feita por quem entende. “Por isso tive parceiros para as composições, a maioria com Ruidil Caetano. Mas não dá para deixar de compor, a composição de versos elaborados é natural, principalmente de algo que me toca. É a expressão do meu sentimento naquele momento, então sento e escrevo. Mas para gravar não dá, tem muita gente fazendo isso no Brasil”, completa.

Entenda
O advogado e compositor Fernando da Costa Santos, de São Vicente (SP), está em Palmas para visitar amigos e conhecer a mais nova capital brasileira. Ele é um dos compositores da canção Julieta, gravada pelo alagoano Sandro Becker, música pela qual estourou nas paradas do Centro-Sul do Brasil, em 1986. Longe do mercado musical, Santos tem umas 20 composições, dentre elas, duas que pretende gravar.