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Palmas, 13 de maio de 2008

A preço de pizza

Alexandre Garcia
é jornalista
contato@alo.com.br

Tudo o que o Governo queria era identificar o vazador da triagem feita no Gabinete Civil da Presidência. Agora que já identificou, parece que não queria isso. Pelo menos o vazador não foi imediatamente retirado do cargo importante que ocupa e muito menos se ouviu manifestação do Palácio condenando a inconfidência de José Aparecido, um petista histórico, posto lá pelo poderoso ministro José Dirceu. José Aparecido, auditor de carreira do Tribunal de Contas da União, escolheu por profissão a nobre tarefa de descobrir desvios nas contas do dinheiro público. É homem com essa formação de rigor com o erário. Difícil aceitar como verdade que ele tenha confidenciado a um amigo que, se for convocado pela CPI, conta tudo. Ele não tem que fazer ameaças. Tem simplesmente a obrigação de contar tudo, ainda que não perguntem, ainda que não seja convocado. Afinal, não é essa a formação dele? Suponho que ele não desonraria dessa forma a casta ética dos auditores do TCU.

E por que mandou a lista com 28 páginas da triagem para seu amigo, também de origem petista e auditor do TCU, que hoje assessora um senador de oposição? Por coincidência, o senador, Álvaro Dias, é um dos mais insistentes a querer conhecer as despesas de cartões do Presidente Lula e de dona Mariza. Seria então uma ameaça? Do tipo “mostre aí ao seu senador o que temos do FHC e Dona Ruth, se ele continuar a insistir”. Ou haveria uma conspiração ao estilo bolchevique dos velhos tempos, como elocubram alguns, de que José Dirceu estaria por trás do vazamento, para deixar mal sua substituta, a ministra Dilma?

Saber quem fez o vazamento é interessante, mas o fato é que o vazamento deixa cristalino o fato de que houve a triagem - que agora se torna inegável. Uma vez que houve a triagem, a pergunta natural é: quem mandou fazer e por que? Óbvio que não foi para se antecipar a pedidos de CPI ou do TCU, porque ninguém está com tempo sobrando para se dedicar dias a fazer uma lista de 28 páginas, sem que tenha havido requisição. Tampouco quatro chefias do Gabinete Civil envolveriam nisso oito pessoas à revelia dos superiores. Digamos que não foi nada disso. Teria, então, sido a oposição? Seria a oposição capaz de fazer uma triagem dentro do Palácio do Planalto para depois incriminar as autoridades do topo do poder? Essa hipótese é ainda mais mirabolante que a de José Dirceu estar por trás disso.

Quando o escândalo veio à tona, eu disse nos meus comentários de rádio que estávamos diante de um novo Watergate. Lembram-se do caso de espionagem que envolveu o chefe do gabinete civil do presidente Nixon e, por fim, o próprio presidente? Há muitas semelhanças entre as duas lambanças. O final é que pode ser diferente. Porque a cultura americana é mais rígida do que a nossa. Aqui, tudo pode acabar como acabou o Valdomiro Diniz, ou os mensaleiros, ou os aloprados. Nas compras com cartões, neste e no outro governo, encontraram-se irrisórios gastos com tapioca. Mas no fundo, no fundo, quem está gastando muito parece que somos nós. Gastando tempo com mais uma prosaica, costumeira e irrisória pizza.