| A preço de pizza Alexandre Garcia
é jornalista
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Tudo o que o Governo queria era identificar o vazador da
triagem feita no Gabinete Civil da Presidência. Agora que já identificou, parece que
não queria isso. Pelo menos o vazador não foi imediatamente retirado do cargo importante
que ocupa e muito menos se ouviu manifestação do Palácio condenando a inconfidência de
José Aparecido, um petista histórico, posto lá pelo poderoso ministro José Dirceu.
José Aparecido, auditor de carreira do Tribunal de Contas da União, escolheu por
profissão a nobre tarefa de descobrir desvios nas contas do dinheiro público. É homem
com essa formação de rigor com o erário. Difícil aceitar como verdade que ele tenha
confidenciado a um amigo que, se for convocado pela CPI, conta tudo. Ele não tem que
fazer ameaças. Tem simplesmente a obrigação de contar tudo, ainda que não perguntem,
ainda que não seja convocado. Afinal, não é essa a formação dele? Suponho que ele
não desonraria dessa forma a casta ética dos auditores do TCU.
E por que mandou a lista com 28 páginas da triagem para
seu amigo, também de origem petista e auditor do TCU, que hoje assessora um senador de
oposição? Por coincidência, o senador, Álvaro Dias, é um dos mais insistentes a
querer conhecer as despesas de cartões do Presidente Lula e de dona Mariza. Seria então
uma ameaça? Do tipo mostre aí ao seu senador o que temos do FHC e Dona Ruth, se
ele continuar a insistir. Ou haveria uma conspiração ao estilo bolchevique dos
velhos tempos, como elocubram alguns, de que José Dirceu estaria por trás do vazamento,
para deixar mal sua substituta, a ministra Dilma?
Saber quem fez o vazamento é interessante, mas o fato é
que o vazamento deixa cristalino o fato de que houve a triagem - que agora se torna
inegável. Uma vez que houve a triagem, a pergunta natural é: quem mandou fazer e por
que? Óbvio que não foi para se antecipar a pedidos de CPI ou do TCU, porque ninguém
está com tempo sobrando para se dedicar dias a fazer uma lista de 28 páginas, sem que
tenha havido requisição. Tampouco quatro chefias do Gabinete Civil envolveriam nisso
oito pessoas à revelia dos superiores. Digamos que não foi nada disso. Teria, então,
sido a oposição? Seria a oposição capaz de fazer uma triagem dentro do Palácio do
Planalto para depois incriminar as autoridades do topo do poder? Essa hipótese é ainda
mais mirabolante que a de José Dirceu estar por trás disso.
Quando o escândalo veio à tona, eu disse nos meus
comentários de rádio que estávamos diante de um novo Watergate. Lembram-se do caso de
espionagem que envolveu o chefe do gabinete civil do presidente Nixon e, por fim, o
próprio presidente? Há muitas semelhanças entre as duas lambanças. O final é que pode
ser diferente. Porque a cultura americana é mais rígida do que a nossa. Aqui, tudo pode
acabar como acabou o Valdomiro Diniz, ou os mensaleiros, ou os aloprados. Nas compras com
cartões, neste e no outro governo, encontraram-se irrisórios gastos com tapioca. Mas no
fundo, no fundo, quem está gastando muito parece que somos nós. Gastando tempo com mais
uma prosaica, costumeira e irrisória pizza. |