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Palmas, 13 de maio de 2008

ENTREVISTA

Rubem Alves “Os saberes a gente
encontra na beira do caminho”

Escritor, que será uma das atrações do salão hoje, critica
o vestibular, diz que a escola é chata e que só alto salário
não faz um bom professor

Lenna Borges
Palmas

O bacharel em Teologia, doutor em Filosofia, psicanalista e professor emérito da Unicamp Rubem Alves, com mais de 50 títulos publicados, voltados para o público adulto e infantil, ministrará hoje, às 19 horas, no Auditório Otávio Barros, a palestra Educação dos Sentidos, durante a quarta edição do Salão do Livro do Tocantins.

Em entrevista ao Jornal do Tocantins, o educador e professor diz que o problema da escola é que ela é chata, não leva em consideração o desejo de aprender das crianças e os professores não são educadores. Ele ainda critica a expressão grade curricular e defende a extinção do vestibular.

JTo - O tema de sua palestra em Palmas será Educação dos Sentidos. É possível educar os sentidos?
- Rubens Alves - Claro que é, é só a gente prestar atenção. Vou te dar um exemplo bem simples: Você vai tomar uma banho de chuveiro de manhã, você tem duas maneiras de entrar debaixo do chuveiro, uma delas é você entrar pensando nas coisas que tem que resolver, a outra é você prestar atenção no prazer da água que escorre pelo seu corpo. Você tem que educar os sentidos para perceber o que esta acontecendo naquele momento. Educar os sentidos é basicamente prestar atenção no momento, em tudo que você se dispor a fazer, seja na educação, dança ou música. Para gostar é preciso aprender e educar os sentidos.

Em uma entrevista à revista Época, o senhor critica o vestibular, as escolas com as grades curriculares e os educadores. Existem muitas pessoas importantes no meio escolar, como o senhor, que são contra o vestibular, mas porque ele continua a existir?
- Por uma razão muito simples: Eles bolaram uma forma enorme de lucros para as empresas, escolas e cursinhos de pré-vestibulares e as pessoas ainda não pararam para analisar o quanto é inútil. Vou dar um exemplo bem simples: todos os reitores de todas as nossas universidades se forem fazer vestibular serão reprovados. Porque eles esqueceram. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Isso significa que todo o esforço feito foi perdido, porque foi esquecido rapidamente, porque a gente só se lembra daquilo que é importante e que faz sentido para a vida, e as questões dos vestibulares não fazem sentido para a vida.

Na entrevista o senhor diz que as escolas são chatas, porque?
- Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. Existe outra expressão terrível: grade curricular. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma que é aquilo que se deve ensinar e acabou. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho, é o que chamamos de inércia.

O senhor acredita que a grade curricular é um dos mecanismos que engessam a escola a se manter imóvel para as transformações contemporâneas?
- Eu acho essa expressão “Grade Curricular” muito estranha, a partir do nome “grade”, porque pressupõe que o conhecimento vem em quadradinhos, certinho, mas na vida não é assim, não é assim que vem os conhecimentos. Minha sugestão é que fosse chamado de “Caminhos Curriculares”, porque os saberes a gente encontra na beira do caminho, a gente vai caminhando e os conhecimentos acontecem durante toda a vida.

O Senhor sempre diz que os educadores não podem ser construídos, eles nascem. Por que?
- Você não pode por exemplo criar um poeta, nem criar um educador, estas coisas nascem com a gente. Você pode ensinar o professor a dar a matéria, fazer o plano de aula, mas educador é outra coisa. A primeira preocupação do educador não é com a matéria que ele vai dar, a primeira preocupação do educador é com o aluno que está diante dele. A relação afetuosa dele para com o aluno não é aprendido, nasce com ele, a gente só pode desenvolver.

A inércia que você disse existir nos professores, o velho discurso de que são mal remunerados ainda vigora para justificar esta inércia?
- Primeiro ponto: eu acho que os educadores têm todo o direito de reclamar e exigir uma melhor remuneração, eles realmente são mal remunerados. Segundo ponto: mas eu não acredito que o fato deles terem uma boa remuneração vai fazer com que sejam melhores professores, a menos que tenham a vocação dentro deles. Eles precisam ganhar mais, mas isso não garante que a qualidade da escola vai melhorar.

Para finalizar, como professor suas aulas eram diferentes?
- Sua pergunta foi ótima e oportuna, porque eu parei de dar aulas na universidade porque descobri que as minhas aulas eram diferentes, porque eram baseadas no que estava acontecendo na sala de aula. Eu não tinha o menor problema em desviar completamente o plano de aula para prestar atenção nos alunos. Daí eu muitas vezes não chegava no ponto que teria que chegar, então alguns alunos mais tradicionais ficavam perdidos e perguntavam “mas o que vai cair na prova”? e não é por aí. Eu não vou dar nada de cair na prova, eu só quero saber o que vocês pensam, isso que é importante. Para o professor não é importante dar matéria, porque ela já está aí, nos livros apostilas e em programas de internet. O importante é ensinar os alunos a pensar e esse negócio de ensinar a pensar não tem em contrato em qual matéria deve se dar.

Biografia
Rubem Alves nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais. Iniciou sua carreira dentro daigreja como pastor. No período de 1953 a 1957 estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP). Em 1963 foi estudar em Nova York, retornando ao Brasil no mês de maio de 1964 com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary. No início da década de 80 torna-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise.Admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, Saramago, Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Santo Agostinho, Borges e Fernando Pessoa, entre outros, tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas com crônicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos. O autor é membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp e cidadão-honorário de Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura.