| ENTREVISTA Rubem Alves Os saberes a gente
encontra na beira do caminho
Escritor, que será uma das atrações do salão
hoje, critica
o vestibular, diz que a escola é chata e que só alto salário
não faz um bom professor
Lenna Borges
Palmas
O bacharel em Teologia, doutor em Filosofia, psicanalista e
professor emérito da Unicamp Rubem Alves, com mais de 50 títulos publicados, voltados
para o público adulto e infantil, ministrará hoje, às 19 horas, no Auditório Otávio
Barros, a palestra Educação dos Sentidos, durante a quarta edição do Salão do Livro
do Tocantins.
Em entrevista ao Jornal do Tocantins, o educador e
professor diz que o problema da escola é que ela é chata, não leva em consideração o
desejo de aprender das crianças e os professores não são educadores. Ele ainda critica
a expressão grade curricular e defende a extinção do vestibular.
JTo - O tema de sua palestra em Palmas será
Educação dos Sentidos. É possível educar os sentidos?
- Rubens Alves - Claro que é, é só a gente prestar atenção. Vou te dar um
exemplo bem simples: Você vai tomar uma banho de chuveiro de manhã, você tem duas
maneiras de entrar debaixo do chuveiro, uma delas é você entrar pensando nas coisas que
tem que resolver, a outra é você prestar atenção no prazer da água que escorre pelo
seu corpo. Você tem que educar os sentidos para perceber o que esta acontecendo naquele
momento. Educar os sentidos é basicamente prestar atenção no momento, em tudo que você
se dispor a fazer, seja na educação, dança ou música. Para gostar é preciso aprender
e educar os sentidos.
Em uma entrevista à revista Época, o senhor
critica o vestibular, as escolas com as grades curriculares e os educadores. Existem
muitas pessoas importantes no meio escolar, como o senhor, que são contra o vestibular,
mas porque ele continua a existir?
- Por uma razão muito simples: Eles bolaram uma forma enorme de lucros para as
empresas, escolas e cursinhos de pré-vestibulares e as pessoas ainda não pararam para
analisar o quanto é inútil. Vou dar um exemplo bem simples: todos os reitores de todas
as nossas universidades se forem fazer vestibular serão reprovados. Porque eles
esqueceram. Porque a memória não carrega coisas que não têm função. Isso significa
que todo o esforço feito foi perdido, porque foi esquecido rapidamente, porque a gente
só se lembra daquilo que é importante e que faz sentido para a vida, e as questões dos
vestibulares não fazem sentido para a vida.
Na entrevista o senhor diz que as escolas são
chatas, porque?
- Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece
porque as coisas são impostas às crianças. Existe outra expressão terrível: grade
curricular. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os
assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma
que é aquilo que se deve ensinar e acabou. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma
coisa porque aí elas não têm trabalho, é o que chamamos de inércia.
O senhor acredita que a grade curricular é um dos
mecanismos que engessam a escola a se manter imóvel para as transformações
contemporâneas?
- Eu acho essa expressão Grade Curricular muito estranha, a partir
do nome grade, porque pressupõe que o conhecimento vem em quadradinhos,
certinho, mas na vida não é assim, não é assim que vem os conhecimentos. Minha
sugestão é que fosse chamado de Caminhos Curriculares, porque os saberes a
gente encontra na beira do caminho, a gente vai caminhando e os conhecimentos acontecem
durante toda a vida.
O Senhor sempre diz que os educadores não podem
ser construídos, eles nascem. Por que?
- Você não pode por exemplo criar um poeta, nem criar um educador, estas coisas
nascem com a gente. Você pode ensinar o professor a dar a matéria, fazer o plano de
aula, mas educador é outra coisa. A primeira preocupação do educador não é com a
matéria que ele vai dar, a primeira preocupação do educador é com o aluno que está
diante dele. A relação afetuosa dele para com o aluno não é aprendido, nasce com ele,
a gente só pode desenvolver.
A inércia que você disse existir nos professores,
o velho discurso de que são mal remunerados ainda vigora para justificar esta inércia?
- Primeiro ponto: eu acho que os educadores têm todo o direito de reclamar e
exigir uma melhor remuneração, eles realmente são mal remunerados. Segundo ponto: mas
eu não acredito que o fato deles terem uma boa remuneração vai fazer com que sejam
melhores professores, a menos que tenham a vocação dentro deles. Eles precisam ganhar
mais, mas isso não garante que a qualidade da escola vai melhorar.
Para finalizar, como professor suas aulas eram
diferentes?
- Sua pergunta foi ótima e oportuna, porque eu parei de dar aulas na
universidade porque descobri que as minhas aulas eram diferentes, porque eram baseadas no
que estava acontecendo na sala de aula. Eu não tinha o menor problema em desviar
completamente o plano de aula para prestar atenção nos alunos. Daí eu muitas vezes não
chegava no ponto que teria que chegar, então alguns alunos mais tradicionais ficavam
perdidos e perguntavam mas o que vai cair na prova? e não é por aí. Eu não
vou dar nada de cair na prova, eu só quero saber o que vocês pensam, isso que é
importante. Para o professor não é importante dar matéria, porque ela já está aí,
nos livros apostilas e em programas de internet. O importante é ensinar os alunos a
pensar e esse negócio de ensinar a pensar não tem em contrato em qual matéria deve se
dar.
| Biografia
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| Rubem Alves nasceu no
dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais. Iniciou sua carreira
dentro daigreja como pastor. No período de 1953 a 1957 estudou Teologia no Seminário
Presbiteriano de Campinas (SP). Em 1963 foi estudar em Nova York, retornando ao Brasil no
mês de maio de 1964 com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary.
No início da década de 80 torna-se psicanalista pela Sociedade Paulista de
Psicanálise.Admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz,
Saramago, Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Santo Agostinho, Borges e Fernando Pessoa, entre
outros, tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas
com crônicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos. O autor é membro da
Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp e cidadão-honorário de
Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura. 


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