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Palmas, 08 de junho de 2008

Tocantins, um rio singular

Thiago Morato de Carvalho
é mestre e doutorando em geomorfologia (UFG) e membro da Exploratória - Expedição Tocantins
tmorato@infonet.com.br

O rio Tocantins é bastante peculiar, desde o ponto de vista geomorfológico, ou seja, campo da ciência que busca compreender a origem, evolução e os processos dinâmicos da paisagem; da ecologia e aspectos sociais que influenciam de forma direta e indiretamente ambientes naturais como o rio Tocantins. Trata-se de um rio que drena por dois grandes domínios morfoclimáticos, o cerrado e o amazônico, estes também são conhecidos como os dois grandes ecossistemas brasileiros.

Porém, quando falamos de grandes sistemas naturais os quais queremos dar enfoque dos seus aspectos físicos e ecológicos, como a geomorfologia (formas da paisagem), clima e vegetação, devemos nos referir aos domínios morfoclimáticos, termo elaborado na década de 70 por um grande geomorfólogo, Aziz Nacib Ab´Saber. Aziz levou em consideração cinco fatores determinantes para caracterizar uma região morfoclimática, sendo o relevo, hidrografia, solos, vegetação e clima. Neste aspecto a bacia hidrográfica do rio Tocantins está inserida em sua maior parte no domínio de cerrado, ambiente que proporciona condicionantes que modificam o ambiente, como produção de sedimentos e seu transporte e deposição ao longo do rio, de forma diferenciada do domínio amazônico. Mas também é uma região favorável para a agropecuária e potencial energético devido as condicionantes do meio físico do centro-oeste.

É neste âmbito, em que ocorre a junção dos fatores do meio físico e socioeconômico, que está a problemática de discussões entre instituições de pesquisas e o ambiente político, pois de um lado têm-se um órgão preocupado em discutir os impactos antrópicos ao meio-ambiente, e do outro partidos e empresas preocupados em gerar meios de subsistência para a sociedade, a qual cada vez mais exige maiores quantidades de fontes alimentícias, consequentemente terras para sua produção. Uma forma de conciliar estes dois lados, são as pesquisas cientificas e os estudos de impactos ambientais, que direcionam o melhor uso dos recursos naturais para que não ocorram prejuízos não somente ao meio-ambiente, mas para a sociedade que depende deste meio, e assim possam auxiliar nas tomadas de decisão e políticas públicas. Infelizmente não é o que na maioria dos casos ocorre, primeiro pela falta de recursos e cultura científica que vivemos no país, por outro lado pela falta de entendimento entre as medidas políticas e a comunidade cientifica. Em primeiro lugar deve-se ter uma base sólida do conhecimento científico, do problema a ser discutido, como no caso de hidrelétricas, hidrovias, e transposições, deve-se saber como o sistema fluvial funciona, sua dinâmica e assim poder projetar cenários dedutivos para que sejam feitas estas obras de forma adequada, e não por simples estudos de impactos ambientais, que muitas vezes são feitos por pessoas que não possuem o menor conhecimento cientifico da área.

Outra atenção que deve ser dada é para certas ONGs e a mídia, que tem passado para a sociedade às vezes de forma sensacionalista os problemas ambientais. Exemplos são diversos, como mudanças climáticas, passando uma idéia catastrófica das ações antrópicas ao meio ambiente, sim existe uma grande influencia negativa do homem ao meio-ambiente, pois o mesmo necessita deste meio para sua sobrevivência numa sociedade que cada vez mais exige energia e alimento. Porém não é informado que o nosso planeta exerce uma força muito maior, é um planeta em constante dinâmica em que oscila do mais quente para o mais frio, passando por períodos intermediários (o qual possibilitou a nossa evolução), mas que deve logo enfrentar novas mudanças climáticas naturais. Deve ser lembrado que a amazônia já foi ambiente igual ao cerrado, e que em futuras oscilações climáticas irá retornar a este processo. No entanto, o homem é capaz de acelerar este processo podendo encurtar um período interglacial (era entre dois períodos glaciais, marcado por um máximo quente), a chave da questão está em até onde o homem pode afetar nestas oscilações climáticas, estas sempre existiram, mas o quanto podemos afeta-las. Outro grande problema está na falta do conhecimento, que infelizmente ocorre dentro do meio acadêmico, como os conhecidos assoreamentos em rios. Em primeiro lugar deve-se ter um extremo cuidado em se falar de “assoreamento”, esta palavra significa que o rio está passando por um processo de aceleramento na deposição de material sedimentar (areias, siltes e argila), mas que deve ser atribuído à ação antrópica.

Todo rio possui seu próprio sistema regulador, passa por períodos de extrema seca e grandes cheias, por vezes estes períodos levam décadas a milênios para se repetirem, mudam o canal de lugar ao longo dos tempos vagando pelas terras adjacentes (avulsões) e logo também possuem uma vida útil. Certos rios podem transportar grandes quantidades de sedimentos, e ele deve depositar este material em certas áreas, formando os bancos de área e ilhas. Dependendo da época o rio irá depositar mais material e em outras áreas irá retirar (erodir), pois sempre está em busca de um equilíbrio, mas que nunca irá alcançá-lo, pois é exatamente esta tendência de qualquer sistema natural estar em busco de seu equilíbrio é que gera a sua dinâmica, proporcionando suas constantes modificações e assim evoluindo. É por este motivo que em determinados períodos rios passam a depositar e erodir em determinados locais e muitas vezes com velocidades notórias.

Para que possamos entender e saber se realmente um determinando sistema fluvial esteja passando por processos de “assoreamento” é preciso ter estudos minuciosos e cautelosos, pois de certa forma o homem está afetando o sistema, mas muitos esquecem que este sistema é auto-regulador, ou seja, é capaz de se ajustar as modificações impostas pelo homem, no entanto a chave da questão está em saber até onde podemos afetar este sistema e o quanto, e para isso, precisamos de ciência não somente no meio acadêmica mas para a sociedade. É com esta intenção que a Exploratória-ExpediçãoTocantins e a futura Expedição Tocantins tem como objetivo analisar este sistema fluvial importante para o Estado do Tocantins seja como fonte de alimento, fonte de energia e turismo, e mostrar sua importância e problemas para a sociedade através de ciência.