| Tocantins, um rio singular Thiago Morato de Carvalho
é mestre e doutorando em geomorfologia (UFG) e membro da Exploratória - Expedição
Tocantins
tmorato@infonet.com.br
O rio Tocantins é bastante peculiar, desde o ponto de
vista geomorfológico, ou seja, campo da ciência que busca compreender a origem,
evolução e os processos dinâmicos da paisagem; da ecologia e aspectos sociais que
influenciam de forma direta e indiretamente ambientes naturais como o rio Tocantins.
Trata-se de um rio que drena por dois grandes domínios morfoclimáticos, o cerrado e o
amazônico, estes também são conhecidos como os dois grandes ecossistemas brasileiros.
Porém, quando falamos de grandes sistemas naturais os
quais queremos dar enfoque dos seus aspectos físicos e ecológicos, como a geomorfologia
(formas da paisagem), clima e vegetação, devemos nos referir aos domínios
morfoclimáticos, termo elaborado na década de 70 por um grande geomorfólogo, Aziz Nacib
Ab´Saber. Aziz levou em consideração cinco fatores determinantes para caracterizar uma
região morfoclimática, sendo o relevo, hidrografia, solos, vegetação e clima. Neste
aspecto a bacia hidrográfica do rio Tocantins está inserida em sua maior parte no
domínio de cerrado, ambiente que proporciona condicionantes que modificam o ambiente,
como produção de sedimentos e seu transporte e deposição ao longo do rio, de forma
diferenciada do domínio amazônico. Mas também é uma região favorável para a
agropecuária e potencial energético devido as condicionantes do meio físico do
centro-oeste.
É neste âmbito, em que ocorre a junção dos fatores do
meio físico e socioeconômico, que está a problemática de discussões entre
instituições de pesquisas e o ambiente político, pois de um lado têm-se um órgão
preocupado em discutir os impactos antrópicos ao meio-ambiente, e do outro partidos e
empresas preocupados em gerar meios de subsistência para a sociedade, a qual cada vez
mais exige maiores quantidades de fontes alimentícias, consequentemente terras para sua
produção. Uma forma de conciliar estes dois lados, são as pesquisas cientificas e os
estudos de impactos ambientais, que direcionam o melhor uso dos recursos naturais para que
não ocorram prejuízos não somente ao meio-ambiente, mas para a sociedade que depende
deste meio, e assim possam auxiliar nas tomadas de decisão e políticas públicas.
Infelizmente não é o que na maioria dos casos ocorre, primeiro pela falta de recursos e
cultura científica que vivemos no país, por outro lado pela falta de entendimento entre
as medidas políticas e a comunidade cientifica. Em primeiro lugar deve-se ter uma base
sólida do conhecimento científico, do problema a ser discutido, como no caso de
hidrelétricas, hidrovias, e transposições, deve-se saber como o sistema fluvial
funciona, sua dinâmica e assim poder projetar cenários dedutivos para que sejam feitas
estas obras de forma adequada, e não por simples estudos de impactos ambientais, que
muitas vezes são feitos por pessoas que não possuem o menor conhecimento cientifico da
área.
Outra atenção que deve ser dada é para certas ONGs e a
mídia, que tem passado para a sociedade às vezes de forma sensacionalista os problemas
ambientais. Exemplos são diversos, como mudanças climáticas, passando uma idéia
catastrófica das ações antrópicas ao meio ambiente, sim existe uma grande influencia
negativa do homem ao meio-ambiente, pois o mesmo necessita deste meio para sua
sobrevivência numa sociedade que cada vez mais exige energia e alimento. Porém não é
informado que o nosso planeta exerce uma força muito maior, é um planeta em constante
dinâmica em que oscila do mais quente para o mais frio, passando por períodos
intermediários (o qual possibilitou a nossa evolução), mas que deve logo enfrentar
novas mudanças climáticas naturais. Deve ser lembrado que a amazônia já foi ambiente
igual ao cerrado, e que em futuras oscilações climáticas irá retornar a este processo.
No entanto, o homem é capaz de acelerar este processo podendo encurtar um período
interglacial (era entre dois períodos glaciais, marcado por um máximo quente), a chave
da questão está em até onde o homem pode afetar nestas oscilações climáticas, estas
sempre existiram, mas o quanto podemos afeta-las. Outro grande problema está na falta do
conhecimento, que infelizmente ocorre dentro do meio acadêmico, como os conhecidos
assoreamentos em rios. Em primeiro lugar deve-se ter um extremo cuidado em se falar de
assoreamento, esta palavra significa que o rio está passando por um processo
de aceleramento na deposição de material sedimentar (areias, siltes e argila), mas que
deve ser atribuído à ação antrópica.
Todo rio possui seu próprio sistema regulador, passa por
períodos de extrema seca e grandes cheias, por vezes estes períodos levam décadas a
milênios para se repetirem, mudam o canal de lugar ao longo dos tempos vagando pelas
terras adjacentes (avulsões) e logo também possuem uma vida útil. Certos rios podem
transportar grandes quantidades de sedimentos, e ele deve depositar este material em
certas áreas, formando os bancos de área e ilhas. Dependendo da época o rio irá
depositar mais material e em outras áreas irá retirar (erodir), pois sempre está em
busca de um equilíbrio, mas que nunca irá alcançá-lo, pois é exatamente esta
tendência de qualquer sistema natural estar em busco de seu equilíbrio é que gera a sua
dinâmica, proporcionando suas constantes modificações e assim evoluindo. É por este
motivo que em determinados períodos rios passam a depositar e erodir em determinados
locais e muitas vezes com velocidades notórias.
Para que possamos entender e saber se realmente um
determinando sistema fluvial esteja passando por processos de assoreamento é
preciso ter estudos minuciosos e cautelosos, pois de certa forma o homem está afetando o
sistema, mas muitos esquecem que este sistema é auto-regulador, ou seja, é capaz de se
ajustar as modificações impostas pelo homem, no entanto a chave da questão está em
saber até onde podemos afetar este sistema e o quanto, e para isso, precisamos de
ciência não somente no meio acadêmica mas para a sociedade. É com esta intenção que
a Exploratória-ExpediçãoTocantins e a futura Expedição Tocantins tem como objetivo
analisar este sistema fluvial importante para o Estado do Tocantins seja como fonte de
alimento, fonte de energia e turismo, e mostrar sua importância e problemas para a
sociedade através de ciência. |