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Palmas, 08 de junho de 2008

ENTREVISTA ZUENIR VENTURA

1968 “Uma lição, não um exemplo”

Há 40 anos, jovens em todo o mundo saíram às ruas protestando;
hoje o legado daquela época ainda existe, mas para o escritor
Zuenir Ventura, o ano de 1968 deve ser superado pela história

Elisangela Farias
Palmas

Foram comemorado no mês de maio os 40 anos do movimento de 1968 - que começou uma greve geral na França e rapidamente adquiriu significado e proporções revolucionárias. Apesar de desencorajada pelo Partido Comunista Francês, e suprimida pelo governo, que acusou os comunistas de tramarem contra a República, o movimento foi o pontapé de uma série de revoltas estudantis que irromperam em algumas universidades e escolas de ensino secundário em Paris, após confrontos com a administração e a polícia. No Brasil, o movimento ocorreu em meio à ditadura militar, que culimou em dezembro do mesmo ano, no ato institucional número 5 - AI5 , símbolo máximo da radicalização da ditadura no País que, entre outras coisas, acabou com habeas corpus e instituiu a censura na imprensa.

Toda essa história foi contada em 68: o ano que não terminou, do escritor Zuenir Ventura. Agora, após 40 anos, ele lança o livro 68: o que fizemos de nós. Em entrevista concedida ao Jornal do Tocantins, via telefone, o autor fala do movimento, da geração atual e do legado que o movimento deixou até hoje, como os movimentos sociais - feminista, negro, ecológico e gay. Além disso, Ventura afirma que o movimento deve ser superado pela história. “É muito importante você olhar para ao passado para não cometer os mesmos erros, mas você não pode ficar ligado a ele eternamente. Você tem que ter o passado como uma referência para você olhar o presente para o futuro. É fundamental retirar do passado as lições”.

Jornal do Tocantins - Em uma entrevista ao Diário do Nordeste, você diz que espera que daqui a 20 anos 1968 tenha sido superado pela história, disse também, no programa Altas horas, que é um ano que não deve se sentir orgulho. Porque nãos entir orgulho?
Zuenir Ventura - Eu não disse que não devia ter orgulho. Eu acho o seguinte, você tem que olhar o 68 não com nostalgia. 1968 é como eu disse no meu livro, uma lição e não um exemplo. Tem coisas muito boas, conquistas importantes ou começaram em 68, ou ganharam corpo em 68 e que são importantes até hoje. Você tem uma herança de 68 positiva, que são os movimentos como o feminista, que a condição da mulher hoje avançou muito mais pós 68; o movimento negro, o movimento ecológico, o movimento gay. São movimentos de liberação que começam ou ganham corpo em 68. Então eu acho que a gente tem que olhar 68 pelas duas vertentes, tem uma herança positiva, que é essa das liberdades, dos direitos individuais, a preocupação com o outro com as minorias, com as diferenças... E tem a herança negativa, que eu chamo até de maldita, que é a questão das drogas. Em 68 se acreditava que as drogas fossem um instrumento de expansão da consciência e, no entanto, hoje você sabe que elas são instrumentos de morte. Acho que é desta maneira que a gente deve olhar 1968. Sessenta e oito teve do bom e também do pior.

E por que deveria ser superado?
- Eu acho que você, como qualquer país, como qualquer história, você não vive do passado. O passado é muito importante você olhar para ele para não cometer os mesmos erros, mas você não pode ficar ligado a ele eternamente. Você tem que ter o passado como uma referência para você olhar o presente para o futuro. É fundamental retirar do passado as lições. Então como o ano de 68 é muito rico, com muita presença na memória do imaginário de todo mundo, eu chamo a atenção para o risco da gente ficar olhando para traz, olhando para 68. Quando eu digo que ele vai ser superado pela história, esse é o destino do passado, ser superado pelo presente, pelo futuro. Então como o jovem olhava para 68, às vezes com muita saudade, aquilo que eu chamo a nostalgia, querendo repetir 68 ai eu digo: 68 não é pra estar se repetindo, 68 não é exemplo, é lição. Tem que ser inspiração e não nostalgia.

Quando escreveu o livro 1968: o ano que não terminou, a especificação “não terminou” era porque acreditava nos desdobramentos dos fatos ou porque já tinha a idéia de lançar um outro livro, o 1968: o que fizemos de nós?
- Não tinha idéia não. Na verdade tinha dois sentidos, um sentido digamos assim figurado, quando eu dizia não terminou é porque no dia 13 de dezembro, a ditadura baixou um ato institucional, chamado o AI 5, que cancelava todas as liberdade, suspendia os habeas corpus, instaurava a censura, era como se realmente 68, antes de terminar, tinha sido castrado. O outro sentido é de que 20 anos depois, quando eu escrevi o livro, eu vi que muita coisa dessa herança ainda estava viva, não tinha terminado, como muita coisa não terminou até hoje. Esses exemplos dos movimentos sociais são contribuições de 1968 que continuam vivas, então é neste sentindo, mas eu não pretendia escrever outro livro. Esse livro na verdade acabou que se escrevendo quase que sozinho, porque a idéia da editora era fazer uma edição revista e atualizada do primeiro livro. À medida que fui olhando, revisitando personagem, episódio, enfim, acabei procurando, interessando pelo que foi feito dos personagens, o que foi feito disso tudo. Aí como detetive eu comecei a ir atrás de vestígios, pistas de 68. Tem um capítulo que se chama assim: Há um 68 em cada canto. Aí eu descobri que tinha remanescente daquela geração no governo, da oposição, na esquerda, na direita , no congresso, no supremo, em todo lugar. Então eu fui atrás e de repente eu vi que estava fazendo outro livro.

Como avalia hoje esse movimento?
- Como eu disse, o 68 foi muito plural, você tem um legado que é muito diverso, como eu disse, tem gente que está na esquerda, na direita, 68 não é unívoco, não é uma coisa assim só. Ele é muito diverso, variado. O balanço desse legado é que têm coisas positivas e negativas. Pra mim a herança maldita é realmente a questão das drogas, mas a avaliação de que se pode fazer é de uma herança plural, variada.

O livro 1968 o que fizeram de nós é dividido em depoimentos, dentre eles, pessoas que estão na vida política e também artística. Quais foram os critérios para selecionar estes depoimentos?
Eu peguei sete personagens. Esses foram importantes em 68 e ao longo destes 40 tiveram também uma grande importância. Um destes personagens é o Fernando Henrique Cardoso, que entra no livro porque em 68, ele estava em Paris, na Universidade de Mantele. Ele lecionava lá, era sociólogo, e um dos alunos dele era o Daniel Robandin, que era o menino que estava agitando, líder das movimentações estudantis, e o Fernando Henrique era professor dele. Daqueles personagens, o que foi mais longe no poder foi ele, que foi presidente por duas vezes. Dos personagens que estavam lá nenhum chegou a esse ponto. Aí achei curioso entrevistá-lo porque é uma experiência rara, uma pessoa que já chegou à presidência. Escolhi o José Dirceu porque foi um poderoso personagem do governo Lula, e é um personagem contraditório. Então fui escolhendo assim, o Caetano porque fez a trilha sonora de 68 nesses 40 anos. A Heloísa Buarque porque é a musa de 68. O primeiro livro começa com ela, com o réveillon na casa dela. Então o critério foi realmente pegar esses sete personagens e através deles olhar esses 40 anos.

E o que foi feito das pessoas que viveram ou participaram do movimento de 68?
Quando eu disse o que fizemos de nós, cada um sabe o que foi feito de si. Como eu disse que foi um movimento variado, plural, não dá pra colocar num bloco só. Eram personagens que estavam naquele momento juntos, unidos no mesmo anseio, sonho, na mesma luta e hoje estão separados, muitos deles são adversários. Dos sete personagens, por exemplo, o Fernando Gabeira e o José Dirceu hoje não se dão e, no entanto, quando o José Dirceu estava preso, o Gabeira foi um dos seqüestradores do embaixador americano para soltá-lo e os outros companheiros que estavam presos. Nestes 40 anos, a trajetória foi muito variada.

Há uma diferença da juventude de 60 com a atual?
- Eu acho que há, mas é preciso tomar cuidado com isso porque a gente está olhando essa juventude com olhar muito antipático, com muito desprezo, da mesma maneira que a geração anterior olhava para a geração de 68 e dizia: ‘esses garotos não querem nada, só querem ir pra rua, fazer agitação, só querem saber de passeata e assembléia, não querem estudar’. Hoje a gente diz a mesma coisa desta geração. Mas é diferente, o mundo é diferente, mas o fato de ser diferente não quer dizer que ela é pior. Os pais olham para os filhos querendo que os filhos sejam iguais a eles e quando não são, acham que são piores. Eu acho que fazendo esse livro eu aprendi um pouco a mudar o meu olhar para esses jovens. Ao invés de virar as costas, a gente tem que ajudá-los. Claro que uns não se interessam pela política, mas também tem suas razões porque política hoje não seduz; eles só pensam em si, porque eles têm um problema que 68 não tinha, não tinha o problema do desemprego. Hoje o menino sai da universidade e tem dificuldade, de arranjar emprego. Tem coisas assim que são bem diferentes, mas que se justificam. Ah! Ele vive na internet! Ele está de certa maneira se comunicando, buscando uma forma de comunicação com os outros. A gente tem que ter mais paciência, tolerância, humildade. É uma geração diferente, evidente que é, mas a condições do país, do mundo, tudo é diferente. Até o conceito de geração. Hoje você não fala mais em “a geração”, como se falava em 68. Você tem tribos, um mundo todo segmentado, fragmentado.

Como o senhor avalia o movimento dos estudantes da UNB, que acamparam na reitoria da universidade?
- Acho que conseguiu o que queria, ocupou a universidade, naquele momento estava repetindo um pouco uma tática de 68, mas eu até conversei com um menino da UNE e disse: ‘Você não podem imitar 68 a vida toda, tem que encontrar formas próprias de protesto, de reivindicação, de pressão’. Ali naquele momento acho que cabia aquilo, tanto que o resultado foi positivo. O reitor acabou saindo, que era o que ele queria ter feito desde o começo. Acho que cada caso é um caso e hoje os recursos são outros, você tem hoje a internet para mobilizar. O que eu recomendo muito para o jovem, insisto, é “olhar para 68, mas não pra copiar, mas pra tirar o que tem de bom”, se for o caso, como foi o caso ali, valia ter aquela forma de luta que era tipicamente de 68. Mas não é pra ficar fazendo isso a vida toda. Não é desse jeito que você faz as coisas avançarem.

O senhor sofreu com a ditadura, inclusive foi preso. Recebeu indenização? O que acha destas indenizações diferenciadas?
- Não. Eu acho que primeiro a lei da anistia e legítima e universal. Agora o uso dela pelo que existiu em alguns casos foi distorcido. Parece que há casos, não conheço todos, em que as pessoas estão recebendo ou receberam mais que mereciam. Há outros que há pessoas que nem sofreram na ditadura e que conseguiram. Agora, a lei em si não pode ser, digamos “deslegitimizada” pelas distorções que há. Em 1995, o sindicato chegou a entrar com pedido de correção de aposentadoria, não era indenização, e eu estava nesta lista e aí eu ouvi que estava uma certa discórdia, misturado gente que não era jornalista, no meio de jornalistas autênticos. Eu sei que fui no INSS, aquela época era o INSS, e pedi para retirar o meu nome da lista. E agora para surpresa minha, quando saíram os últimos casos descobri que meu nome continuava lá. Aí tive que entrar de novo, mandei o advogado, com outro pedido, com cópia do requerimento de 95, com artigo que tinha escrito em que dizia que estava saindo fora daquela lista. Eu terminei dizendo que é mais fácil você receber indenização do que recusá-la. Eu consegui que não fosse adiante, mas foi uma luta e isso é uma distorção.

Algum projeto?
- Não, eu estou na situação de pós-parto. O livro parece um parto, estou em convalescença do parto. Não estou pensando em nada.

Trajetória
Ventura trabalhou e dirigiu a redação do Correio da Manhã, reformulou e dirigiu a redação do Diário Carioca, foi chefe de reportagem do O Cruzeiro, dirigiu a redação da revista Fatos & Fotos. Participou da concepção de O Sol, chefiou a sucursal Rio da revista Visão. Após ser preso no AI5 produziu para a Editora Abril a série de 12 reportagens Os anos 60 - A década que mudou tudo, mais tarde lançada em livro.

Colaborou como roteirista no documentário Que país é esse?, realizado por Leon Hirzsman para a Rádio e Televisão Italiana. Trabalhou na Veja, Istoé, reformulou a revista Domingo, do Jornal do Brasil, criou o Caderno B-Especial e o suplemento semanal Idéias, voltado principalmente para a literatura. Ganhou os prêmios Esso de jornalismo e o Wladimir Herzog, de direitos humanos, com reportagens feitas sobre a morte do seringueiro assassinado no Acre, Chico Mendes.

Após chacina na calendária criou o Viva Rio. Saiu do Jornal do Brasil e passou a assinar duas colunas, uma em O Globo, e outra na revista Época. Nos últimos tempos escreveu para o site www. no.com.br., já extinto, e atualmente participa do www. nominimo.com.br e da página de opinião de O Globo.