| ENTREVISTA ZUENIR
VENTURA 1968 Uma lição, não um exemplo
Há 40 anos, jovens em todo o mundo saíram às
ruas protestando;
hoje o legado daquela época ainda existe, mas para o escritor
Zuenir Ventura, o ano de 1968 deve ser superado pela história
Elisangela Farias
Palmas
Foram comemorado no mês de maio os 40 anos do movimento de
1968 - que começou uma greve geral na França e rapidamente adquiriu significado e
proporções revolucionárias. Apesar de desencorajada pelo Partido Comunista Francês, e
suprimida pelo governo, que acusou os comunistas de tramarem contra a República, o
movimento foi o pontapé de uma série de revoltas estudantis que irromperam em algumas
universidades e escolas de ensino secundário em Paris, após confrontos com a
administração e a polícia. No Brasil, o movimento ocorreu em meio à ditadura militar,
que culimou em dezembro do mesmo ano, no ato institucional número 5 - AI5 , símbolo
máximo da radicalização da ditadura no País que, entre outras coisas, acabou com
habeas corpus e instituiu a censura na imprensa.
Toda essa história foi contada em 68: o ano que não
terminou, do escritor Zuenir Ventura. Agora, após 40 anos, ele lança o livro 68: o que
fizemos de nós. Em entrevista concedida ao Jornal do Tocantins, via telefone, o autor
fala do movimento, da geração atual e do legado que o movimento deixou até hoje, como
os movimentos sociais - feminista, negro, ecológico e gay. Além disso, Ventura afirma
que o movimento deve ser superado pela história. É muito importante você olhar
para ao passado para não cometer os mesmos erros, mas você não pode ficar ligado a ele
eternamente. Você tem que ter o passado como uma referência para você olhar o presente
para o futuro. É fundamental retirar do passado as lições.
Jornal do Tocantins - Em uma entrevista ao Diário
do Nordeste, você diz que espera que daqui a 20 anos 1968 tenha sido superado pela
história, disse também, no programa Altas horas, que é um ano que não deve se sentir
orgulho. Porque nãos entir orgulho?
Zuenir Ventura - Eu não disse que não devia ter orgulho. Eu acho o seguinte,
você tem que olhar o 68 não com nostalgia. 1968 é como eu disse no meu livro, uma
lição e não um exemplo. Tem coisas muito boas, conquistas importantes ou começaram em
68, ou ganharam corpo em 68 e que são importantes até hoje. Você tem uma herança de 68
positiva, que são os movimentos como o feminista, que a condição da mulher hoje
avançou muito mais pós 68; o movimento negro, o movimento ecológico, o movimento gay.
São movimentos de liberação que começam ou ganham corpo em 68. Então eu acho que a
gente tem que olhar 68 pelas duas vertentes, tem uma herança positiva, que é essa das
liberdades, dos direitos individuais, a preocupação com o outro com as minorias, com as
diferenças... E tem a herança negativa, que eu chamo até de maldita, que é a questão
das drogas. Em 68 se acreditava que as drogas fossem um instrumento de expansão da
consciência e, no entanto, hoje você sabe que elas são instrumentos de morte. Acho que
é desta maneira que a gente deve olhar 1968. Sessenta e oito teve do bom e também do
pior.
E por que deveria ser superado?
- Eu acho que você, como qualquer país, como qualquer história, você não
vive do passado. O passado é muito importante você olhar para ele para não cometer os
mesmos erros, mas você não pode ficar ligado a ele eternamente. Você tem que ter o
passado como uma referência para você olhar o presente para o futuro. É fundamental
retirar do passado as lições. Então como o ano de 68 é muito rico, com muita presença
na memória do imaginário de todo mundo, eu chamo a atenção para o risco da gente ficar
olhando para traz, olhando para 68. Quando eu digo que ele vai ser superado pela
história, esse é o destino do passado, ser superado pelo presente, pelo futuro. Então
como o jovem olhava para 68, às vezes com muita saudade, aquilo que eu chamo a nostalgia,
querendo repetir 68 ai eu digo: 68 não é pra estar se repetindo, 68 não é exemplo, é
lição. Tem que ser inspiração e não nostalgia.
Quando escreveu o livro 1968: o ano que não
terminou, a especificação não terminou era porque acreditava nos
desdobramentos dos fatos ou porque já tinha a idéia de lançar um outro livro, o 1968: o
que fizemos de nós?
- Não tinha idéia não. Na verdade tinha dois sentidos, um sentido digamos
assim figurado, quando eu dizia não terminou é porque no dia 13 de dezembro, a ditadura
baixou um ato institucional, chamado o AI 5, que cancelava todas as liberdade, suspendia
os habeas corpus, instaurava a censura, era como se realmente 68, antes de terminar, tinha
sido castrado. O outro sentido é de que 20 anos depois, quando eu escrevi o livro, eu vi
que muita coisa dessa herança ainda estava viva, não tinha terminado, como muita coisa
não terminou até hoje. Esses exemplos dos movimentos sociais são contribuições de
1968 que continuam vivas, então é neste sentindo, mas eu não pretendia escrever outro
livro. Esse livro na verdade acabou que se escrevendo quase que sozinho, porque a idéia
da editora era fazer uma edição revista e atualizada do primeiro livro. À medida que
fui olhando, revisitando personagem, episódio, enfim, acabei procurando, interessando
pelo que foi feito dos personagens, o que foi feito disso tudo. Aí como detetive eu
comecei a ir atrás de vestígios, pistas de 68. Tem um capítulo que se chama assim: Há
um 68 em cada canto. Aí eu descobri que tinha remanescente daquela geração no governo,
da oposição, na esquerda, na direita , no congresso, no supremo, em todo lugar. Então
eu fui atrás e de repente eu vi que estava fazendo outro livro.
Como avalia hoje esse movimento?
- Como eu disse, o 68 foi muito plural, você tem um legado que é muito diverso,
como eu disse, tem gente que está na esquerda, na direita, 68 não é unívoco, não é
uma coisa assim só. Ele é muito diverso, variado. O balanço desse legado é que têm
coisas positivas e negativas. Pra mim a herança maldita é realmente a questão das
drogas, mas a avaliação de que se pode fazer é de uma herança plural, variada.
O livro 1968 o que fizeram de nós é dividido em
depoimentos, dentre eles, pessoas que estão na vida política e também artística. Quais
foram os critérios para selecionar estes depoimentos?
Eu peguei sete personagens. Esses foram importantes em 68 e ao longo destes 40
tiveram também uma grande importância. Um destes personagens é o Fernando Henrique
Cardoso, que entra no livro porque em 68, ele estava em Paris, na Universidade de Mantele.
Ele lecionava lá, era sociólogo, e um dos alunos dele era o Daniel Robandin, que era o
menino que estava agitando, líder das movimentações estudantis, e o Fernando Henrique
era professor dele. Daqueles personagens, o que foi mais longe no poder foi ele, que foi
presidente por duas vezes. Dos personagens que estavam lá nenhum chegou a esse ponto. Aí
achei curioso entrevistá-lo porque é uma experiência rara, uma pessoa que já chegou à
presidência. Escolhi o José Dirceu porque foi um poderoso personagem do governo Lula, e
é um personagem contraditório. Então fui escolhendo assim, o Caetano porque fez a
trilha sonora de 68 nesses 40 anos. A Heloísa Buarque porque é a musa de 68. O primeiro
livro começa com ela, com o réveillon na casa dela. Então o critério foi realmente
pegar esses sete personagens e através deles olhar esses 40 anos.
E o que foi feito das pessoas que viveram ou
participaram do movimento de 68?
Quando eu disse o que fizemos de nós, cada um sabe o que foi feito de si. Como
eu disse que foi um movimento variado, plural, não dá pra colocar num bloco só. Eram
personagens que estavam naquele momento juntos, unidos no mesmo anseio, sonho, na mesma
luta e hoje estão separados, muitos deles são adversários. Dos sete personagens, por
exemplo, o Fernando Gabeira e o José Dirceu hoje não se dão e, no entanto, quando o
José Dirceu estava preso, o Gabeira foi um dos seqüestradores do embaixador americano
para soltá-lo e os outros companheiros que estavam presos. Nestes 40 anos, a trajetória
foi muito variada.
Há uma diferença da juventude de 60 com a atual?
- Eu acho que há, mas é preciso tomar cuidado com isso porque a gente está
olhando essa juventude com olhar muito antipático, com muito desprezo, da mesma maneira
que a geração anterior olhava para a geração de 68 e dizia: esses garotos não
querem nada, só querem ir pra rua, fazer agitação, só querem saber de passeata e
assembléia, não querem estudar. Hoje a gente diz a mesma coisa desta geração.
Mas é diferente, o mundo é diferente, mas o fato de ser diferente não quer dizer que
ela é pior. Os pais olham para os filhos querendo que os filhos sejam iguais a eles e
quando não são, acham que são piores. Eu acho que fazendo esse livro eu aprendi um
pouco a mudar o meu olhar para esses jovens. Ao invés de virar as costas, a gente tem que
ajudá-los. Claro que uns não se interessam pela política, mas também tem suas razões
porque política hoje não seduz; eles só pensam em si, porque eles têm um problema que
68 não tinha, não tinha o problema do desemprego. Hoje o menino sai da universidade e
tem dificuldade, de arranjar emprego. Tem coisas assim que são bem diferentes, mas que se
justificam. Ah! Ele vive na internet! Ele está de certa maneira se comunicando, buscando
uma forma de comunicação com os outros. A gente tem que ter mais paciência,
tolerância, humildade. É uma geração diferente, evidente que é, mas a condições do
país, do mundo, tudo é diferente. Até o conceito de geração. Hoje você não fala
mais em a geração, como se falava em 68. Você tem tribos, um mundo todo
segmentado, fragmentado.
Como o senhor avalia o movimento dos estudantes da
UNB, que acamparam na reitoria da universidade?
- Acho que conseguiu o que queria, ocupou a universidade, naquele momento estava
repetindo um pouco uma tática de 68, mas eu até conversei com um menino da UNE e disse:
Você não podem imitar 68 a vida toda, tem que encontrar formas próprias de
protesto, de reivindicação, de pressão. Ali naquele momento acho que cabia
aquilo, tanto que o resultado foi positivo. O reitor acabou saindo, que era o que ele
queria ter feito desde o começo. Acho que cada caso é um caso e hoje os recursos são
outros, você tem hoje a internet para mobilizar. O que eu recomendo muito para o jovem,
insisto, é olhar para 68, mas não pra copiar, mas pra tirar o que tem de
bom, se for o caso, como foi o caso ali, valia ter aquela forma de luta que era
tipicamente de 68. Mas não é pra ficar fazendo isso a vida toda. Não é desse jeito que
você faz as coisas avançarem.
O senhor sofreu com a ditadura, inclusive foi
preso. Recebeu indenização? O que acha destas indenizações diferenciadas?
- Não. Eu acho que primeiro a lei da anistia e legítima e universal. Agora o
uso dela pelo que existiu em alguns casos foi distorcido. Parece que há casos, não
conheço todos, em que as pessoas estão recebendo ou receberam mais que mereciam. Há
outros que há pessoas que nem sofreram na ditadura e que conseguiram. Agora, a lei em si
não pode ser, digamos deslegitimizada pelas distorções que há. Em 1995, o
sindicato chegou a entrar com pedido de correção de aposentadoria, não era
indenização, e eu estava nesta lista e aí eu ouvi que estava uma certa discórdia,
misturado gente que não era jornalista, no meio de jornalistas autênticos. Eu sei que
fui no INSS, aquela época era o INSS, e pedi para retirar o meu nome da lista. E agora
para surpresa minha, quando saíram os últimos casos descobri que meu nome continuava
lá. Aí tive que entrar de novo, mandei o advogado, com outro pedido, com cópia do
requerimento de 95, com artigo que tinha escrito em que dizia que estava saindo fora
daquela lista. Eu terminei dizendo que é mais fácil você receber indenização do que
recusá-la. Eu consegui que não fosse adiante, mas foi uma luta e isso é uma
distorção.
Algum projeto?
- Não, eu estou na situação de pós-parto. O livro parece um parto, estou em
convalescença do parto. Não estou pensando em nada.
| Trajetória |
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| Ventura trabalhou e
dirigiu a redação do Correio da Manhã, reformulou e dirigiu a redação do Diário
Carioca, foi chefe de reportagem do O Cruzeiro, dirigiu a redação da revista Fatos &
Fotos. Participou da concepção de O Sol, chefiou a sucursal Rio da revista Visão. Após
ser preso no AI5 produziu para a Editora Abril a série de 12 reportagens Os anos 60 - A
década que mudou tudo, mais tarde lançada em livro. Colaborou como roteirista no documentário Que país é esse?,
realizado por Leon Hirzsman para a Rádio e Televisão Italiana. Trabalhou na Veja,
Istoé, reformulou a revista Domingo, do Jornal do Brasil, criou o Caderno B-Especial e o
suplemento semanal Idéias, voltado principalmente para a literatura. Ganhou os prêmios
Esso de jornalismo e o Wladimir Herzog, de direitos humanos, com reportagens feitas sobre
a morte do seringueiro assassinado no Acre, Chico Mendes.
Após chacina na calendária criou o Viva
Rio. Saiu do Jornal do Brasil e passou a assinar duas colunas, uma em O Globo, e outra na
revista Época. Nos últimos tempos escreveu para o site www. no.com.br., já extinto, e
atualmente participa do www. nominimo.com.br e da página de opinião de O Globo. |
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