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Palmas, 02 de julho de 2009

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Flávio Herculano
flavio.herculano@secom.to.gov.br
é jornalista

Michael Jackson: ícone sobrevive

25 de junho. Uma notícia nebulosa. Triste. Estranha. Histórica. A morte de Michael Jackson. Mas como? Michael é um ícone. Um personagem. Um ser - sem sexo, sem idade, sem vida. Então, impossível estar morto. É como noticiar que Mickey Mouse morreu.

Michael é arte. Transpôs o limite do humano ao tornar-se um astro - ou uma estrela. Não é um homem. É algo que existe no palco, e que fora do tablado prossegue como uma persona artística, jamais como um ser humano.

Michael transmutou-se em sua imagem de cantor. Roupas cintilantes, óculos escuros, luva branca, calças e sapatos negros em contraste com as meias alvas. Seu corpo também foi incorporado ao figurino. Aquele nariz transfigurado, protegido por máscaras; aquela pele rosada, protegida sempre por um guardas-sol; os lábios finos; o cabelo alisado; o furo construído no queixo - tudo foi modificado, integrando-se à sua vestimenta de ícone Pop.

E como ele surgiu astro ainda bem pequeno, e já pronto para o showbiss, sabendo qual imagem esperavam dele e moldando-se à ela sem restrições, é como se tivesse sido sempre a persona artística, nunca um humano puro. Nunca teve resfriado, nunca quebrou o braço nem apareceu ao natural - de bermuda, chinelos, despenteado e sem maquiagem. Veio lembrar-nos que é gente só na hora final.

Seus gestos sempre foram suaves, sua maquiagem excessiva, suas roupas extravagantes. Não convencia ao dizer-se heterossexual, como também não dá para imaginá-lo numa verdadeira relação gay. É como se seu prazer e sua libido só fossem vivenciados diante da platéia, ao bolinar-se e contorcer-se, entre sussurros e os indefectíveis gritos agudos.

Nasceu predestinado a astro, por isso foi o melhor. Um homem-ritmo. O mais afinado. O exímio dançarino. O mais profissional - afinal, fez da arte a sua vida. Escolheu ser o maior - o Rei do Pop. Intitulou-se assim com propriedade, pois entregou a própria vida à perseguição desta meta. Rei na arte, rei na vida, Michael Jackson transferiu para dois se seus filhos a condição de príncipes, dando-lhes os nomes de Prince Michael I e Prince Michael II.

De fato, Michael foi soberano. Conduziu multidões. Foi o maior. Teve a vida mais intensa e grandiosa, considerando-se que sua vida foi exclusivamente o estrelato - sem amor romântico, sem aconchego familiar, mas adorado por milhões em todo o mundo.

Que pena, o astro precisava também ser humano. Sem suporte emocional, ruiu. Perdeu o ritmo - o ritmo da sua vida e também da sua música, pois ambas nunca se dissociaram.

Toda a existência de Michael Jackson foi um grande show. Então, a morte veio antes, não na fatídica quinta-feira, 25 de junho. Veio quando as vendas de discos escassearam, os títulos e prêmios legendários ficaram no passado e a reclusão se apresentou como único destino. Sem o palco, Michael tornou-se um espectro.

Tentou voltar à vida. Tentou reviver a glória, relançando os álbuns e vídeos que lhe colocaram no topo do mundo e anunciando a turnê final, ao ritmo de seus maiores sucessos. Não conseguiu, afinal, fez um pacto - não com o diabo, mas com o showbiss. Pagou o preço deste pacto. Submergiu à própria imagem e à fama, na tentativa inútil de manter-se eternamente no topo do mundo.

Que, de toda essa história mirabolante e grandiosa, o público enfim consiga dissociar o homem de sua arte, fazendo justiça e deixando para a posterioridade o talento e a genialidade; e não as excentricidades e os escândalos.

Envie sua crônica ou causo (de 30 a 45 linhas) - acompanhado de uma foto para o email jtoartevida@jornaldotocantins.com.br