|
Michael Jackson: ícone sobrevive
25 de junho. Uma notícia nebulosa. Triste. Estranha.
Histórica. A morte de Michael Jackson. Mas como? Michael é um ícone. Um personagem. Um
ser - sem sexo, sem idade, sem vida. Então, impossível estar morto. É como noticiar que
Mickey Mouse morreu.
Michael é arte. Transpôs o limite do humano ao tornar-se
um astro - ou uma estrela. Não é um homem. É algo que existe no palco, e que fora do
tablado prossegue como uma persona artística, jamais como um ser humano.
Michael transmutou-se em sua imagem de cantor. Roupas
cintilantes, óculos escuros, luva branca, calças e sapatos negros em contraste com as
meias alvas. Seu corpo também foi incorporado ao figurino. Aquele nariz transfigurado,
protegido por máscaras; aquela pele rosada, protegida sempre por um guardas-sol; os
lábios finos; o cabelo alisado; o furo construído no queixo - tudo foi modificado,
integrando-se à sua vestimenta de ícone Pop.
E como ele surgiu astro ainda bem pequeno, e já pronto
para o showbiss, sabendo qual imagem esperavam dele e moldando-se à ela sem restrições,
é como se tivesse sido sempre a persona artística, nunca um humano puro. Nunca teve
resfriado, nunca quebrou o braço nem apareceu ao natural - de bermuda, chinelos,
despenteado e sem maquiagem. Veio lembrar-nos que é gente só na hora final.
Seus gestos sempre foram suaves, sua maquiagem excessiva,
suas roupas extravagantes. Não convencia ao dizer-se heterossexual, como também não dá
para imaginá-lo numa verdadeira relação gay. É como se seu prazer e sua libido só
fossem vivenciados diante da platéia, ao bolinar-se e contorcer-se, entre sussurros e os
indefectíveis gritos agudos.
Nasceu predestinado a astro, por isso foi o melhor. Um
homem-ritmo. O mais afinado. O exímio dançarino. O mais profissional - afinal, fez da
arte a sua vida. Escolheu ser o maior - o Rei do Pop. Intitulou-se assim com propriedade,
pois entregou a própria vida à perseguição desta meta. Rei na arte, rei na vida,
Michael Jackson transferiu para dois se seus filhos a condição de príncipes, dando-lhes
os nomes de Prince Michael I e Prince Michael II.
De fato, Michael foi soberano. Conduziu multidões. Foi o
maior. Teve a vida mais intensa e grandiosa, considerando-se que sua vida foi
exclusivamente o estrelato - sem amor romântico, sem aconchego familiar, mas adorado por
milhões em todo o mundo.
Que pena, o astro precisava também ser humano. Sem suporte
emocional, ruiu. Perdeu o ritmo - o ritmo da sua vida e também da sua música, pois ambas
nunca se dissociaram.
Toda a existência de Michael Jackson foi um grande show.
Então, a morte veio antes, não na fatídica quinta-feira, 25 de junho. Veio quando as
vendas de discos escassearam, os títulos e prêmios legendários ficaram no passado e a
reclusão se apresentou como único destino. Sem o palco, Michael tornou-se um espectro.
Tentou voltar à vida. Tentou reviver a glória,
relançando os álbuns e vídeos que lhe colocaram no topo do mundo e anunciando a turnê
final, ao ritmo de seus maiores sucessos. Não conseguiu, afinal, fez um pacto - não com
o diabo, mas com o showbiss. Pagou o preço deste pacto. Submergiu à própria imagem e à
fama, na tentativa inútil de manter-se eternamente no topo do mundo.
Que, de toda essa história mirabolante e grandiosa, o
público enfim consiga dissociar o homem de sua arte, fazendo justiça e deixando para a
posterioridade o talento e a genialidade; e não as excentricidades e os escândalos.
Envie sua crônica ou causo (de 30 a 45
linhas) - acompanhado de uma foto para o email jtoartevida@jornaldotocantins.com.br |