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Palmas, 02 de julho de 2009

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NAVEGABILIDADE

“Resgate de uma dívida histórica“

Elisangela Farias
Palmas

“Caminhos que andam: o rio Tocantins e a navegação fluvial nos sertões do Brasil é história. Mas, dizer isso desse livro é muito pouco, mesmo com todo o rigor científico emaranhado em sua arquitetura.” Palavras do reitor da Universidade Federal do Tocantins, Alan Barbiero, que faz a apresentação do livro da historiadora e presidente do Conselho Municipal de Cultura, Kátia Maia Flores, que será lançado hoje, às 19h30, no Espaço Cultural.

Em entrevista concedida ao Jornal do Tocantins, Kátia lembra que o livro é resultado da tese de doutorado defendida junto à Universidade Federal de Minas Gerais. Os estudos sobre o assunto começaram com a implantação da Usina Luis Eduardo Magalhães. E o resultado é um livro que trata da importância do rio Tocantins no processo de interiorização do Brasil, através da navegação.

Durante entrevista, Kátia conta como foi o estudo, os impactos hoje vividos por ribeirinhos por causa das hidrelétricas; além disso, opina sobre a hidrovia Araguaia-Tocantins, que é uma das possibilidades da volta da navegação pelo rio.

Como surgiu a ideia de estudar o rio Tocantins?

O livro é resultado da tese de doutorado defendida junto à Universidade Federal de Minas Gerais no ano de 2006. Porém, a ideia de trabalhar com esse tema surgiu em 1999 quando era eminente o enchimento do rio formando o lago Luis Eduardo Magalhães. Naquela ocasião, não tinha clareza sobre o que efetivamente fazer com esse tema, uma vez que eu era movida mais por indignação que por conhecimento e razão. Na verdade, pouco se discutia na época sobre os efeitos que o represamento do rio causaria ao meio ambiente, às populações ribeirinhas, só para citar alguns. No mais, no decorrer das pesquisas, me deparei com uma vasta e rica documentação que permitiu compreender a importância que a navegação do rio Tocantins teve para a sociedade do norte de Goiás e para a economia goiana como um todo. As exportações do norte, feitas nas embarcações que transitavam pelo rio Tocantins, representavam mais de 50% da arrecadação goiana. Além disso, representava o principal meio de comunicação com o restante do país, tanto para os nortistas quanto para o sul de Goiás. No mais, o livro procura assinalar como a natureza era concebida como um bem de uso e inesgotável, o que, portanto tinha que ser incorporada ao chamado progresso.

O livro foi realizado com incentivo do programa Palmas pra Cultura, da prefeitura de Palmas. A obra seria executada sem esse apoio?

São restritas as possibilidades de edição de um livro acadêmico. Penso que sem o apoio do programa dificilmente esse livro seria publicado, como não são publicados cerca de 90% da produção intelectual desse País, resultado de monografias, dissertações e teses. Infelizmente. Além disso, sou grande defensora dos Editais de Cultura, penso que é a forma mais democrática e meritória de financiamento da arte e da cultura. Espero que mais editais venham dar oportunidade para que livros dessa natureza cheguem à sociedade.

Como foi realizada a pesquisa?

A pesquisa foi quase toda realizada junto aos arquivos do Rio de Janeiro, tais como: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; Arquivo do Itamaraty; Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Arquivo Nacional e Biblioteca do Exército. Em Goiânia, no Arquivo Estadual de Goiás. Além de uma gama variada de fontes impressas adquiridas em sebos e livrarias.

Foi possível detectar características peculiares das populações que vivem ao longo do rio? Essas se perderam ou ainda prevalecem?

Sim. O processo de ocupação às margens do rio Tocantins, historicamente, resultou de diferentes fluxos migratórios para uma região de fronteira, que conformou ao longo do rio populações indígenas, africanos, refugiados da seca do sertão do Ceará, ou populações extrativistas do sul do Maranhão e Piauí que encontravam aqui meios de reprodução social similar às de origem. O resultado foi a origem de uma multifacetada sociedade, chamada de sertaneja, cuja principal característica é o enfrentamento do mundo natural, modificando-o ou conformando-se a ele. De certo, tal população, hídrica como nos diz frei José Audrim, aprendeu a viver do rio, tirar dele suas necessidades: transporte, alimentação, imaginário, crendices, etc. Esse sertanejo ribeirinho está prestes a desaparecer, principalmente por pressão do grande empreendimento, as Usinas Hidrelétricas, que inundam as margens dos rios, desabrigando seus moradores para áreas de periferia das cidades. Tal questão, gravíssima, tem provocado uma desconexão dessas populações com os rios, afetando seus modos de reprodução social, econômica e simbólica.

No livro você cita que a navegação possibilitou atividades paralelas como a produção de embarcações. Essa atividade ainda existe nas cidades ribeirinhas?

A navegação prevaleceu como o principal meio de transporte na região durante mais de século. Século XIX. Isso repercutia na movimentação de várias pessoas em torno dessa atividade. Profissões como pilotos, remeiros, proeiros, popeiros, construtores de embarcações, entre outros. Estas profissões, ao declinar a navegação, declinam também. Hoje, praticamente não existem mais.

Como é visto hoje o rio Tocantins? Qual sua importância?

Prevaleceu na contemporaneidade a visão do rio como recurso hídrico, ou seja, prevaleceu a visão utilitarista do século XIX. Infelizmente, não se vê o rio como água, algo fundamental para as novas gerações. Não se vê o rio como gerador de cultura, cultura que conecta as pessoas ao meio ambiente. O rio Tocantins é vida para o Estado. Esse rio corta o Tocantins de um extremo ao outro, o que significa dizer que qualquer desequilíbrio nesse ecossistema pode significar um grande desastre para o estado.No mais, o rio perdeu sua importância como caminho, como navegação. Isto está claro na medida em que se constroem barramentos sem eclusas, impedindo que o trânsito pelo rio aconteça. Essa é mais uma das penalidades impostas às populações ribeirinhas, ao meio ambiente, às populações como um todo.

Em que sentido o rio Tocantins foi um dos elementos definidores da vida cultural e social das populações ribeirinhas?

Quase toda produção econômica que entrava e saía do norte goiano se dava através do rio. Alem disso, as sociabilidades, as informações, a moda, os códigos sociais e culturais também circulavam pelo rio. As viagens não transportavam apenas elementos materiais. Transportavam também os elementos simbólicos que davam contorno e forma às sociabilidades ribeirinhas.

As cidades que estão nas margens do rio Tocantins têm a importância de antigamente, ou perderam com a construção da Belém - Brasília?

Poderíamos pensar a história do povoamento do Tocantins a partir de três eixos: o primeiro, através da mineração do século XVIII, com os arraiais e vilas ligados às atividades produtivas e à mineração do ouro (Arraias, Natividade, Carmo, entre outras); a segunda, ligada à navegação no século XIX (Porto Imperial, Pedro Afonso, São José das Duas Barras, etc.); e a terceira, com a construção da Belém - Brasília no século XX.

Com certeza, a supremacia das cidades que margeiam a Belém - Brasília existe, uma vez que é através dela que circulam os bens e mercadorias através do transporte rodoviário.

As inúmeras hidrelétricas construídas ao longo do rio Tocantins fazem com que este perca sua importância em relação à navegação?

O Brasil, infelizmente, tem andado na contramão dos sistemas de transporte. Diferente de grande parte dos países europeus e asiáticos, o nosso sistema de transporte ainda se baseia fundamentalmente no rodoviário. Esse equívoco em relação a transportes se reproduz no planejamento das hidrelétricas construídas e em construção que não preveem a construção de eclusas. Isso significa dizer que as hidrelétricas do rio Tocantins provocam barramentos no rio, impedindo a navegação. Os estudos apontados no livro sinalizavam que o principal problema enfrentado pela navegação do rio Tocantins eram os obstáculos naturais, como corredeiras e cachoeiras. Tais obstáculos seriam então, resolvidos pela formação dos lagos das hidrelétricas. Isso representaria uma minimização dos danos provocados pelas represas.

Hoje se fala na hidrovia Araguaia-Tocantins como um mecanismo a mais para alavancar a economia do Estado? Como vê essa questão?

Estudos apontam inúmeras vantagens para o sistema de transporte hidroviário. Como a construção das hidrelétricas é fato consumado no rio Tocantins, o certo seria mitigar tais efeitos, viabilizando a navegabilidade do rio Tocantins. Isso seria, no mínimo, o resgate de uma dívida histórica para com a região e para com os heróicos navegantes do século XIX que viabilizaram economicamente, socialmente e culturalmente nosso Tocantins.

Saiba mais
A escritora

Kátia Maia Flores é graduada em Biblioteconomia pela Universidade Católica de Goiás, doutora em história pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre pela Universidade Federal de Pernambuco. É ex-Diretora de Pós - Graduação da UFT e ex- Pró-reitora de graduação. Atualmente está à frente da chefia de gabinente da vice-governadoria e é presidente do Conselho Municipal de Cultura.

Serviço
O quê - lançamento do livro Caminhos que andam- O Rio Tocantins e a Navegação Fluvial dos Sertões do Brasil
Quando - hoje , às 19h30
Onde - Espaço Cultural